16/04/2005
Número - 416





   

Alberto Cohen



INVEJA
 

 


Sabe que tenho uma saudável inveja (no bom sentido, é evidente) de você que construiu um mundo virtual não apenas com fantasias, mas, também, com realidades expressas de forma inconfundível em tantas crônicas e artigos? Outras vezes, por exigência da alma de poeta, os versos saltam da ponta de sua caneta para o papel, olham um lado e o outro, e partem para o mundo através dos canais de comunicação.

Essa mistura do cotidiano com o mais longínquo país do faz-de-conta é a ponte que lhe permite transitar entre o real e o imaginário, o nu e cru dia-a-dia e o sonho que é o alimento das almas sensíveis. Daí o equilíbrio que você demonstra em tudo que escreve e comenta. A poesia contrabalançando a realidade e vice-versa. O poeta andando junto com o atento repórter. Sabe e conhece sua missão de cantar, mas não foge daquela outra: a de denunciar.

Agora veja este seu amigo, uma cigarra que canta sem perceber que o inverno se aproxima, dominado exclusivamente pela poesia, ama e patroa cada vez mais exigente, que tenta recuperar o tempo perdido com o lado sórdido do ser humano. E a poesia obsessiva, amigo, é uma arte muito perigosa na medida em que afasta o criador da vida verdadeira, levando-o por caminhos de sonhos, esperanças e carências, numa busca, jamais chegada, da ilha do Nunca-Jamais do Peter Pan.

Como explicar a grande viagem de um ser humano pelas madrugadas indormidas, debruçado numa folha de papel, esquadrinhando palavras que formem idéias que formem versos que formem poemas que formem, enfim, a solitária alegria do haver criado um retalho do belo total, ainda assim sujeito às correções inevitáveis? E a angústia da rima não achada, ou da idéia, afinal encontrada, acutilando o cérebro sem conseguir vestir-se de palavras, quem entenderá, além de outro poeta?

Alguém (não me lembro quem) uma vez disse que escrever poesia é como parir um filho: não se sabe, nunca, se nascerá sadio ou defeituoso, belo ou feio, no entanto será, sempre, filho do poeta que o escreveu. Para o bem ou para o mal. E aí o drama: o sofrimento não se exaure com o parto, mas se perpetua na caminhada do nascido, em busca da luz e do reconhecimento, através dos campos minados que assassinam tantas vocações legítimas. Daí por diante, somente as notícias, boas ou más, sobre o comportamento dele em sua trajetória.

”Alcançado o poema, / difícil é arrumá-lo. / Ele vem em postas, / esfatiado, / frases inacabadas.”
“Arrumado o poema, / difícil é retê-lo. / Um instante tem dono, / depois é rebelde, / ou de maioridade.”

O pior é que todo dia será o dia do grande poema, aquele tão indiscutível e perfeito que se tornará eterno, mas que, obviamente, não virá.

Com todos os prós e muitos contras, se for verdade que os homens nascem com uma destinação, a minha, com certeza, é a de escrever poesia, bem ou mal, mas escrever.

Talvez por isso fizeram-me daltônico. Para que não pairem dúvidas de que as letras são o meu destino e não um cavalete, telas, tintas e pincéis.

É no território das metáforas e rimas que me esgoto e ressuscito, perco-me e tento achar-me, desespero em cada tentativa e me rejubilo em cada conclusão. Aqui é o meu mundo, o resto é simplesmente a vida.

Nada me impede, contudo, de invejar você. Saudavelmente, é claro.



(16 de abril/2005)
CooJornal no 416


Alberto Cohen
poeta e escritor
AlbertoLCohen@aol.com