11/06/2005
Número - 424





   

Alberto Cohen


Pequena crônica
 

 

De repente, dobrando uma esquina, lá estão, cara a cara, olhando para o passado. Ela mais gorda, ele mais velho, e uma emoção enorme, talvez pelo que viveram juntos e até pelo que não viveram.

Por alguns segundos, imobilizados pela surpresa, permanecem com um sorriso bobo nos lábios e uma grande vontade de dizer alguma coisa que não foi dita e ficou desperdiçada, durante muitos anos, nos arquivos e porões dos ressentimentos. Mais bobos ainda, exclamam um “olá, como vai” de quem se viu na véspera.

A intimidade antiga ainda tenta esconder-se nos pudores do intervalo de tempo decorrido, mas o aperto de mãos traz de volta o contacto das carnes que tanto já se misturaram que não têm mais segredos entre si.

Os seios estão maiores! O bigode está branco! Deus do céu, quantos anos passaram e ainda guardam, indeléveis, as imagens que deviam ter sido rasgadas junto com as fotografias!

Enquanto os olhos devassam, as bocas indagam da saúde, da família e de assuntos corriqueiros, como se pudessem ser, apenas, bons amigos...

Inevitavelmente, depois de algum tempo, voltam ao que foram e, lentamente, às recordações: uma festa, uma história gozada, o grande beijo, os sonhos, a primeira vez. E lá vão eles fazendo o percurso, no sentido inverso, do longo caminho no qual procuraram apagar, um do outro, as pegadas. E o passado faz-se presente e o futuro volta a existir: Eu te amava... Também te amava... Ainda amo... Sempre amarei...

Olhos nos olhos, mãos entrelaçadas fortemente, como se quisessem reter aquele instante e o mundo nele contido pelo restante de suas vidas, nem percebem as lágrimas de crença na predestinação daquele reencontro, depois de tantos desencontros e descaminhos.

São belos, puros e inocentes como no momento da criação, bem antes da serpente. E estão sós, pertencem um ao outro e sempre andaram juntos nas dízimas periódicas em que se repetiram disfarçados com diversos rostos, corpos e esperanças.

Homem e mulher sem idade, náufragos apaixonados que se bastam numa ilha deserta, pairam acima da multidão, dos carros, das mangueiras e agora estão na Itália, na França, no Egito, em todos os lugares sonhados antigamente.

O encantador, o maravilhoso ridículo acontece então: Às seis horas da tarde de uma segunda-feira, numa esquina de movimentada rua, um casal de sexagenários se abraça e beija, como Humphrey e Ingrid deveriam ter feito no final de Casablanca.

Um garoto ironiza: “Eta, velhos sem-vergonha”!

A tacacazeira adverte e proclama: “Respeita moleque! Eles se amam”! E, feliz, sorri com a boca desdentada.



(11 de junho/2005)
CooJornal no 424


Alberto Cohen
poeta e escritor
AlbertoLCohen@aol.com