25/06/2005
Número - 426

- Inveja
- Pequena crônica
- Semeaduras



   

Alberto Cohen


 Passarinhos

 

 

Primeiro veio a cigarra, presente de uma boa amiga de muitos anos, numa gaiolinha velha e escura. Emitia alguns piados, ameaçando cantar, mansa como ela só.

Rapidamente promovida a uma gaiola maior e mais bonita, ganhou lugar de destaque na parede da sacada, no meio das flores e plantas. Aí sim, começou a trinar, pavoneando-se de poleiro em poleiro, prometendo grandes cantorias. Era o centro das atrações.

As crianças, principalmente, embevecidas com a nova amiguinha, cercavam-na de cuidados e atenções, promovendo verdadeiras romarias de colegas para a exibição das qualidades vocais da artista. Nessas horas, nada e ninguém importava, somente a cigarra.

Não sei se impressão minha, coisa de velho, mas comecei a perceber nela rompantes de vaidade e egocentrismo na forma de inclinar a cabeça para o lado e abrir, parcialmente, as asas, quando se sentia observada. Nada de mais, apenas mesuras de uma estrela em começo de carreira.

Um dia foi atacada por formigas atraídas pelas sobras de frutas. Debateu-se, desesperadamente, (talvez um pouco mais que o necessário) até ser acudida e saneada dos insetos. A partir daquele dia, o caso adquiriu conotações de evento importante, passando a ser lembrado como “o dia das formigas”, toda vez que alguém da casa a ele se referia.

Como tudo que é bom dura pouco, eis que chegou o curió, sedoso e negro, comprado na feira do Ver-O-Peso e referendado pelo vendedor como rei das aves canoras. De fato, embora jovem, dobrava os gorjeios, ainda no início de uma promissora carreira lírica.

Imediatamente alojado em viveiro idêntico ao do outro passarinho, dava gosto o seu jeito orgulhoso e arrogante de erguer o bico e estufar o peito durante as notas mais agudas, como se estivesse consciente de seu poderio musical e dos aplausos que viriam após a apresentação.

Não vou negar que o ar senhoril com que ele ignorava, solenemente, a moradora da gaiola vizinha, causava-me certo prazer e acho até que eu resmungava, entre dentes: “Agora é que eu quero ver”.

A cigarra, depois de algumas tímidas tentativas de competir com o recém-chegado, emudeceu e tornou-se arisca à aproximação de qualquer pessoa, mesmo para renovação de água e alpiste. A superada prima-dona revoltava-se com a ascensão do novo solista.

Aos poucos, a hierarquia foi sendo estabelecida e o digno e aprumado curió passou a emitir suas notas musicais, tendo a cigarra como quieta ouvinte e espectadora.

Definidos os papéis, a paz voltou a reinar. Astro é astro e platéia é platéia.

Ah! A cigarra, às vezes, ainda canta. Quando o curió está dormindo.



(25 de junho/2005)
CooJornal no 426


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com