16/07/2005
Número - 429

- Inveja
- Mãos
- Passarinhos
- Pequena crônica
- Saudade de mim
- Semeaduras



   

Alberto Cohen


AMIGOS

 

 

Há muito não se viam. Desde a faculdade. Bons tempos.

Cinco anos juntos, como irmãos, nas lutas acadêmicas em pleno governo militar, mas, também, cinco anos de festas, farras, violão e rum Montila. Dinheiro pouco e disseminado, prudentemente, entre apostilas e andanças noturnas pela cidade, ainda chamada de morena. Por incrível que pareça, alunos acima da média. Um deles violonista, o outro metido a poeta, em determinada ocasião juntaram-se e venceram um concurso universitário de música com uma canção escandalosamente de protesto. Foi a glória!

Inesperadamente, três décadas transcorridas, deram de encontro no interior da casa bancária. Pronunciaram seus nomes, abraçaram-se como se os anos não houvessem passado, mas as palavras não vinham. Somente o sorriso e o carinho expresso nos olhos definiam a intensidade daquela velha amizade.

Durante algum tempo estiveram em pálidas indagações e vagas respostas, procurando reencontrar a intimidade de outrora, sentindo-se ainda tão amigos, embora separados pela vida. O silêncio intercalou as frases vazias, contrastando com os corações batendo mais forte pela emoção.

Por mágicos momentos, quase foram jovens e idealistas novamente. O trabalho e os compromissos, no entanto, trouxeram-nos para a realidade e, simultaneamente, olharam os relógios: Já estavam atrasados!

Deram-se as mãos como se pedissem desculpas e, com um convencional “prazer em revê-lo”, retomaram suas melancólicas vidinhas. O gordo e o careca.




(16 de julho/2005)
CooJornal no 429


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com