30/07/2005
Número - 435





   

Alberto Cohen


Marionetes


 

 

Uma existência inteira para esquecer. E será que o lembrar dói mais que o esquecer?

A vida não é um quadro-negro em que escrevemos, apagamos e voltamos a escrever segundo nossa vontade. Ao contrário, guarda marcas indeléveis, boas e más, alegres e sofridas, mas, de todo modo, profundas e demarcadoras dos dias vividos ou perdidos.

Engraçado como as paixões são repetitivas. Os amantes julgam-se resolvidos e não percebem o passado que se esconde atrás de cada frase ou gesto, pronto a saltitar pelos tapetes e cortinas numa dança mambembe de lembranças de um outro tempo. Tempo de crer, tempo de sonhar, tempo de ganhar, tempo de não ter.

As pegadas estão lá, incólumes às tentativas de desfazê-las, mas impossíveis de serem seguidas no sentido inverso de sua trajetória, até porque os pés já não são os mesmos e outros rastros, mais recentes, foram deixados. No entanto, não há como impedir os percursos paralelos das recordações que, de repente, acenam com absurdas promessas.

Reconstruir, porém, menos que tentativa, é uma piada injusta. Uma casa desabada jamais será a mesma, ainda que pelas mãos do melhor dos arquitetos. E a cada vez mais nos distanciamos de nossa identidade, até sermos tantos e tão pequenos que já nem lembramos o original.

Assim é o ser humano: todo ânsia, insatisfação, avidez. E sonhos. Talvez por isso a compaixão infindável de Deus por seus bonecos, frágeis, mas que ainda sonham e lutam por esquecer. Ou lembrar. O que doer menos.




(30 de julho/2005)
CooJornal no 435


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com