20/08/2005
Número - 438

- Amigos
- Borboletas
- Inveja
- Mãos
- Marionetes
- Passarinhos
- Pequena crônica
- Saudade de mim
- Semeaduras



   

Alberto Cohen


Nazareth, o bairro


 

 

É bem verdade que o Nazareth dos meus sonhos e lembranças não mais existe em Belém do Pará. Foi descaracterizado em tudo, até no th, sumariamente amputado. Por que, então, a fixação que tenho por esse lugar mágico, tantos anos passados?

Cresci aqui, correndo atrás das plumas de samauma que, no mês de outubro, enfeitavam o céu do bairro e faziam a alegria dos moleques na disputa de quem colecionava o maior número delas. Branquinhas, leves e sedosas, como sedosas, leves e claras eram as amizades e os primeiros amores.

As centenárias samaumeiras ainda sobrevivem às inúmeras tentativas de exterminá-las, mas, simplesmente, talvez em sinal de protesto, pararam de germinar sementes e com elas as plumas. E o maior absurdo: ninguém percebeu.

Os periquitinhos, nos dias que antecediam a festa do Círio, eram esperados, ansiosamente, pelos comerciantes, pois, segundo a tradição, sua chegada prenunciava bons negócios durante a quinzena de festejos. E, de repente, lá vinham eles, em nuvens, esverdeando o céu, numa estridente algazarra. Os sorrisos se estampavam nos rostos de todas as pessoas, como se os passarinhos fossem uma benção da Senhora. Voltam, ainda hoje, mas, poucos e calados, solidários com as samaumeiras, onde fazem seu pouso.

E as cadeiras nas calçadas? E os brinquedos de miriti? E os Cavalinhos e Zepelins provincianos e desejados? E o cinema “Poeira”. E a farda do Grupo Escolar Barão do Rio Branco? E a primeira namorada? Onde estão? Talvez submersos no mesmo subterrâneo em que se esconde a estátua do ascético padre Afonso, construtor da Basílica, a espera, somente, de um assobio de chamar amigos que os desencante.

Não tem remédio. Sou de um lugar em que as pessoas eram manos e manas, vizinhos e não, apenas, moradores de uma mesma rua. Tempo em que a poesia vivia, solta, nas brincadeiras infantis e no primeiro beijo. Tempo de não saber que a saudade guardava, emboscada nas esquinas futuras da vida, o momento de não poder regressar, mesmo querendo.

Em Nazareth brinquei, sonhei, fui feliz. Um dia, parti para o mundo, na aventura de sobreviver em fronteiras desconhecidas e, às vezes, hostis. Nele ficou o garoto que eu era, com seus olhos de admirar maravilhas simples, como tudo que é mágico. Muitos anos depois, um velho, cansado e incrédulo, retorna em busca do menino, de seu olhar e das pegadas deixadas num território tão encantado que o nome terminava em th.


(20 de agosto/2005)
CooJornal no 438


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com