27/08/2005
Número - 439





   

Alberto Cohen


ROSA


 

 

Finalmente rosa! Depois daquele botão enfezado e feio que parecia predestinado a ser somente uma verruga de mau aspecto encravada no galho da planta, explodia na manhã a primogênita flor do incipiente jardim.

Róseas-avermelhadas, suas pétalas abertas pareciam cristalizadas pelo sereno. Era uma virgem acordando, após uma noite de sono. No meio de tantas folhas e vasos, majestosa por ser única, o próprio símbolo da esperança que se materializava.

Embalada pela brisa, dançava, lânguida bailarina, no palco da sacada do apartamento. Num momento ereta, curvava-se, em seguida, como agradecendo aplausos imaginários.

O sol, o primeiro em sua vida de rosa, destacava-lhe nuanças de cores jamais conseguidas nas paletas dos pintores mais famosos. Originais e primitivas como as cores da rosa-mãe no jardim do Éden.

Resposta à tentativa de humanizar o cimento e o granito, lá estava ela, só, inconsciente de sua solidão e vida efêmera. Era rosa e como tal se portava: leviana, travessa e frágil.

Naquele instante, não fazia parte de um jardim. Narcisista, até o ignorava, simples moldura para sua vaidosa beleza. Rosa e ponto.

Com certeza, se pudesse saber quão pequena seria sua vida, responderia, desdenhosa: “E daí? Terei sido flor. Muito mais, rosa”.


(27 de agosto/2005)
CooJornal no 439


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com