03/09/2005
Número - 440





   

Alberto Cohen



O rei morreu! Viva o rei!

 

 

Com esse brado se proclamava oficialmente a partida de um monarca e a imediata ascensão de outro. O trono não podia estar vago, sequer por um minuto. Era assim e, guardadas as proporções, continua sendo.

Em que momento meus filhos assumiram a direção de seus destinos e, pensam eles, do meu? Quando deixaram de ser meus meninos e se tornaram meus protetores?

As gerações se sucedem, inexoravelmente, e o ontem se transforma no amanhã do dia de hoje, sem que ocorra um intervalo, um aviso de que a estrada começa a se bifurcar e o novo está pronto para assumir o controle.

Houve um tempo em que segurar minhas mãos era o gesto automático e confiante com que dois garotinhos se entregavam ao meu discernimento paternal. Os garotinhos cresceram, estão maiores que eu. Fortes e resolutos, acertam e erram por conta própria, fazem suas escolhas da mesma forma como errei e acertei fazendo as minhas.

Como criador, aplaudo suas vitórias, choro suas tristezas. São meus melhores poemas. Neles depositei as rimas mais ricas, a melhor métrica, o ideário mais bonito, para conseguir o efeito final. E estão aí, são do mundo (embora acreditem que o mundo é deles) e vão me repetindo em cada metáfora definitiva, ou tônica fora do ritmo. Mas que saudade de suas pequeninas mãos...

Curioso como só conseguimos compreender a geração antecedente a nossa, depois do advento da conseqüente. Um dia, meu pai me abraçou, aparentemente sem qualquer razão, e, com a voz meio embargada, perguntou-me quando teria um neto. Naquele momento, um velho rei entregava o trono ao seu herdeiro.



(03 de setembro/2005)
CooJornal no 440


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com