17/09/2005
Número - 442

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen


Simples e coloquial


 

 

Muitas vezes ouvimos alguém dizer que a linguagem de determinado poeta, ou escritor, é excessivamente simples e coloquial. Vem a pergunta: Qual o conceito de excessivo que demarca os limites da linguagem do dia-a-dia do povo? O máximo de coloquialismo possível, obedecida a gramática, não será o ideal para o comunicador transmitir suas mensagens ao maior número de pessoas?

Os verdadeiros grandes autores, sempre procuraram, exaustivamente, a forma mais simples e correta do dizer razões e do criar metáforas profundas, embora construídas com singeleza. Um mínimo de traços e cores para exaltar o essencial da pintura: O belo.

Manoel Bandeira, com sua proverbial economia de palavras, talvez tenha definido de forma definitiva a visão que tinha de poetar: “Se alguma vez fui hermético, foi sem querer”.

Se é verdade que as palavras são ferramentas e peças no processo de criação, de dar corpo às idéias, também é verdade que o escritor deve ser leitor de si mesmo, daquilo que escreve. Em outras palavras, o pensar é um idioma que é traduzido pelo escrever. O redator tem de saber que o subjetivo é seu, mas o que escreve é do mundo, ainda que sujeito a subentendidos e entrelinhas. De outra forma, ele seria um autor lido apenas por ele mesmo.

O povo não lê! Errado. O povo lê o que sente e entende, embora interpretando ao seu modo. Gosta da originalidade feita como se fosse corriqueira, sem preciosismos, labirintos e charadas. As abstrações funcionam somente para um círculo fechado de eleitos, as câmaras do “me entende que eu te entendo”.

Muitas restrições são feitas, por exemplo, à poesia de cordel. Algumas, efetivamente, procedem. No entanto, sobrepujando a construção gramatical primária e precária, explodem inventiva e inspiração, ritmo, métrica e rimas, formando idéias concatenadas e claras.

Contam que ao morrer Getúlio, um cordelista ouvindo a notícia pelo rádio começou a escrever os versos de "A lamentável morte de Getúlio Vargas”. Ao meio dia havia terminado e à tarde recebeu os primeiros folhetos. Em dois dias vendeu perto de 80.000 deles. Um exemplo, apenas, dos “versos de opinião” que o povo, no sentido mais verdadeiro, escreve e lê. E como lê.

Enquanto isso, os eternos intricados repousam nas prateleiras de fundo das livrarias, em companhia das traças e do mofo.



(17 de setembro/2005)
CooJornal no 442


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm