24/09/2005
Número - 443

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen


A solidão do chefe


 

 

Aquela nação indígena tinha sempre dois chefes: Um para os dias de paz, quando todos os conflitos haviam sido resolvidos, outro para a guerra, para o vencer ou vencer, para os atos de bravura e liderança. Um era o provedor, o outro o defensor. Cada qual absoluto, dependendo da época que atravessavam.

Ocorre que, durante a guerra, o chefe da paz não podia perder o ar pacífico e tranqüilo, enquanto na paz o chefe guerreiro tinha que demonstrar ferocidade, como se ainda estivesse em combate. Imagine-se o conflito interior de cada um ao se tornar símbolo de uma expectativa.

Nos dias de importância meramente totêmica, na solidão de um comando sem seguidores, o chefe reserva (chamemos assim) costumava partir para grandes caminhadas, geralmente com destino desconhecido. Dizia-se que estava viajando para dentro dele mesmo. Na verdade o que buscava era somente a paz, ou a guerra (conforme o caso), que não podia vivenciar junto com os de sua tribo. O encontro com o momento histórico que lhe era negado.

Nessas peregrinações, ocorria, então, o absurdo de um chefe da guerra alimentar-se somente de raízes e frutos, para não molestar os animais, e cuidar de doentes e feridos encontrados, por acaso, no caminho. De outro modo, era comum um chefe da paz bestializar-se, transformando-se em sanguinário matador de qualquer ser vivo que avistasse. Apenas as respectivas formas de contraditarem a ambigüidade de seus destinos.

Assim, guerreiros tornavam-se, em determinado instante, monges e distribuidores da caridade, e pacifistas mudavam em cruéis assassinos seriais.

Ao voltarem para a aldeia, o da paz coberto de sangue e o da guerra com um acervo de atos de bondade, afivelavam, novamente, suas máscaras e assumiam os papéis de bons ou maus, que por algum tempo haviam abandonado.

Nota - Obviamente, tudo isso é fantasia e um amontoado de palavras sem objetivo ou moral da história.




(24 de setembro/2005)
CooJornal no 443


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm