15/10/2005
Número - 446

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen


Garças


 

 

A garça pescando na vazante da maré é sinônimo de calma e paciência. Seu jeito de ficar inteiramente imóvel, como se fosse parte da praia e não um animal em busca de alimento, é um ritual que se completa com a fisgada certeira do bico e a deglutição do pequeno peixe. Na operação toda move-se apenas do pescoço para cima, permanecendo o restante do corpo em total imobilidade.

É independente e jamais pesca em grupo. Cada uma escolhe seu pedaço de areia e água e nele esgota todas as possibilidades de conseguir comida. Quando procura um lugar mais farto, o faz respeitando os espaços das outras pescadoras.

Praticidade, economia de movimentos e auto-suficiência são os atributos dessa sobrevivente da escassez e da poluição, na sua teimosia de pescar, diariamente, em praias e lugares que a ação predatória do homem já danificou.

Ao voar, porém, não é mais a máquina de ainda agora. Diferente das outras aves, bate asas lenta e longamente, como se exaurisse, até o limite, a capacidade do ar em mantê-la voando. Movimentos suaves e rítmicos, toda transformada numa seta branca a cortar o céu, mero cenário desse balé que se repete como se fosse, sempre, a primeira vez.

Não existe maneira de conter a emoção diante do verdadeiro poema que ela escreve por entre as nuvens, pouco antes do pôr-do-sol, em seu trajeto de retorno ao ninho. É graça, é beleza, absoluta presteza do mais pesado ser o mais leve, contrariando a gravidade sem esforço aparente, docemente, na embriaguez do saber voar.



(15 de outubro/2005)
CooJornal no 446


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm