0511/2005
Número - 449

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen


QUINTANARES


 

 

“Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.”

Meus amigos sabem da admiração profunda que tenho pelo Mario Quintana. Cada vez maior. Lendo sobre o poeta e o homem, fico maravilhado por haver existido alguém tão singelamente inteligente, autêntico e despretensioso quanto ele. Na minha visão, transcende o universo literário nacional e ombreia com Neruda, Lorca, Benavides, Drummond, Bandeira e alguns outros.

Gênio! E irresponsável em seus cantares (ou quintanares, como dizia Bandeira). Os amigos juntaram sua obra. Ele apenas a criou. E não foi pequena. Desde “A rua dos Cataventos” (1940), até a sua morte em 1994, publicou algumas dezenas de livros, alguns em inglês e espanhol, afora traduções de autores de várias nacionalidades. Aliás, sobre os livros ele escreveu: “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

"Os versos de Quintana me encantam por sua linguagem erudito-caipira, assim como encantaram muita gente boa. O poeta era adorado por Manoel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral de Melo, Cecília Meireles, Vinícius de Morais, que por sinal inventou o diminutivo carinhoso “poetinha” para ele. Bandeira, inclusive, publicou um poema para saudá-lo nos sessenta anos, criando o vocábulo “quintanares” para se referir aos seus versos:"

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.
Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!
..................................
..................................

Homem de muitos amigos, sobre a amizade Mário Quintana deixou a seguinte reflexão: “A amizade é um amor que nunca morre.”

Pois bem, esse anjo-poeta jamais conseguiu ser aceito na Academia Brasileira de Letras. Seus amigos escritores tentaram fazê-lo “imortal” três vezes. Como Jesus, por três vezes foi recusado pelos fardões empedernidos. Não se revoltou. Magoado, na última vez escreveu, apenas, o famoso "Poeminha do contra":

Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!

Como pôde um país carente de verdadeiros poetas pretender que ele fosse menos que os maiores? Como se atreveu uma academia, que tinha nos seus quadros algumas insignificâncias, negar-lhe o acesso que nem mesmo pleiteava? Tudo, talvez, culpa de sua própria humildade: Ele passeava de mãos dadas com a poesia, não a carregava como bagagem e troféu.

Mário Quintana amava a vida, mas convivia, tranqüilamente, com a idéia da morte. Menosprezando-a, escreveu os seguintes versos:

Amigos não consultem os relógios
quando um dia me for de vossas vidas...
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

E, depois, ainda fez graça: "A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos."

Foi para o céu, aos 88 anos de idade, em 5 de maio de 1994. Deve estar gozando com a cara dos anjos, sob o sorriso complacente de Deus.



(05 de novembro/2005)
CooJornal no 449


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm