12/11/2005
Número - 450

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen


Somente para os teus olhos


 

 

De repente, essa canção saída do passado, do frio e dos lençóis da última madrugada que passamos juntos na entrega desesperada do saber antecipado que seria a derradeira de um amor sem fim.

Quantos adjetivos criamos e carinhos inventamos, como se quiséssemos fazer uma provisão deles para as próximas madrugadas sem nós dois. Homem e mulher sem solução nem planos, cultivando a única esperança de que os galos não entoassem o hino do nosso ponto final.

Órfãos de um futuro que nos foi tomado, marcamos nossos corpos com os lábios e dentes da paixão em brasa, como se cada um esperasse deixar no outro, indelével, a mensagem: “Estive aqui”.

Depois a solidão conferindo, passo a passo, os dias transcorridos sem o teu corpo, irremediável complemento do meu.

E, agora, vem o Billy Eckstine cantar de novo I Apologise, trazendo aos meus olhos o saldo das lágrimas que eu julgava haver chorado todas, misturadas com as tuas, naqueles momentos em que as almas, mais que os corpos, embaralharam-se tanto que até hoje não conseguem separar-se.

Pego o telefone e faço o que jurei jamais fazer: disco o número proibido, na esperança que atendas e em meu silêncio escutes teu verdadeiro nome que só eu conheço, pois te batizei. Se me deres, também, o silêncio, ele falará por nós e dirá que aquela madrugada de salvados e perdas, ao som do Billy Eckstine, foi bem maior que todo o resto de nossas vidas.




(12 de novembro/2005)
CooJornal no 450


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm