26/11/2005
Número - 452

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen



Resposta e risada

 

 

Cheguei à conclusão de que, no fim, para tudo haverá uma resposta e uma risada. A resposta é por que não perguntaste? A risada é a de Deus se divertindo.

Ator que desconhece o texto a ser interpretado, entregue, noite após noite, à sanha da platéia uivante e ameaçadora que não aceita as pausas e silêncios de quem espera aplausos, fui bandoleiro, rei e navegante, combati guerras que nem eram minhas, reinei pigmeus, vendo-os gigantes, e descobri o caminho para as Índias em barcos naufragados.

Minhas verdades costumeiras eram tantas que as mentiras mudavam o nome para inverdades, meias-verdades, quase verdades e, em determinado instante, não mais existiam mentiras, somente verdades e suas colaterais.

Eu era as cores todas que não enxergava, a sabedoria que existe na tolice, o proprietário de um tempo ao meu dispor. E foi assim, teimoso e solitário, que percorri estradas ao contrário, jamais chegando, nem sequer partindo, preso no espelho da falsa identidade.

Pedaços foram deixados pelo confuso caminho, sem a possibilidade de serem recuperados, pois as pegadas e rastros sumiram impedindo o retorno. As vãs tentativas de busca serviram, apenas, para que as amputações ficassem mais visíveis e o amputado mais ridículo e indefeso.

Afinal, a linha imaginária do horizonte, guardando sonhos e desígnios, não foi a Terra Prometida, cais de arrimo e abrigo de esperanças nascentes ou perdidas que tentaram a viagem, mas não foram vistas novamente.

E agora vou de encontro à resposta e à risada que me esperam desde quando iniciei a caminhada. O que não sabem é que já me respondi e morro de rir de todas as risadas.



(26 de novembro/2005)
CooJornal no 452


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm