10/12/2005
Número - 454

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen



Um garotinho e a poesia


 

 

Uma vez, faz muito tempo, um garotinho acordou no meio da noite, olhou para o céu e escreveu no caderno do grupo escolar: “Esta noite me acordei, / esta noite, bem cedinho, / então olhei para o céu / tava todo estreladinho”. A redondilha escrita com os recursos de um menino de oito anos, mas perfeitamente metrificada, embora ele ainda nem conhecesse a métrica, permanece entre os guardados da família.

O menino adolesceu, tornou-se prematuramente adulto e saiu pelo mundo a participar de diversos enredos do teatro mambembe da vida. Foi trapezista de circo, jornalista, marinheiro, corretor, comerciante, caminhoneiro, taxista, advogado e policial. Jamais deixou, no entanto, de escrever as coisas que sua intuição ditava e que seu coração pedia. Só não as mostrava por timidez e pejo.

Um dia, já aposentado, começou a tirar das gavetas os versos caminhados em tantas madrugadas e a mostrá-los como curiosidades. Percebeu, então, que aqueles seres que ele julgava de pedra tinham, por baixo da capa protetora, coração e sensibilidade. Enterneciam-se, quase às lágrimas.

Foi aí que se deu o estalo: A poesia era o fio condutor da centelha que humanizava mesmo quem dizia não gostar dela. Os poemas falavam de coisas que já estavam dentro de cada um esperando, apenas, uma janela para a liberdade. E mais, os versos só eram de quem os escrevia, até serem lidos. Depois eram de todos, de quem quisesse interpretá-los em novas versões do original pretendido.

Sentou-se à escrivaninha e rabiscou no antigo caderno do grupo escolar: Hoje descobri que a poesia não tem dono. ELA é a dona e eu sou, apenas, o mesmo garotinho de oito anos de idade, a conferir estrelas no céu.


(10 de dezembro/2005)
CooJornal no 454


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm