18/02/2006
Número - 464

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen



O prazer de escrever


 

 

Bom mesmo é escrever sem qualquer pretensão, além daquela de navegar nas ondas das linhas e entrelinhas, deixando razões e divagações ancoradas nas praias de papel para serem recolhidas e lidas por alguns leitores.

O prazer de redigir é solitário e auto-suficiente, sem nenhuma previsão e espera de aplausos, reconhecimentos, condecorações, etc. O verdadeiro autor escreve pela mais absoluta e íntima necessidade de grafar as idéias que se engalfinham dentro do cérebro, querendo emergir traduzidas na forma de letras.

O essencial é o mote, a idéia básica e central sobre a qual irão se desenrolar os arrazoados daquele que empunha a caneta. Deve ser de natureza a mexer com emoções, conceitos, valores, que existem no olhar subjetivo de quem escreve e, ao mesmo tempo, lê e critica a si mesmo.

Neste ponto, é bom que se ressalte a importância da autocrítica, como forma de vigilância aos sintomas precoces de uma megalomania que possa seduzir o escritor, tornando-o adorador de si mesmo. Caído nessa vala comum, não enxergará mais defeitos naquilo que escreve (o rei jamais estará nu). Por outro lado, deficiências e erros, segundo seu prisma, serão abundantes nos textos de outros autores.

E o prazer de escrever, que deve ser fundamental para a satisfação do ímpeto criador? Irá se perdendo na ânsia da competição gratuita, quando a elaboração de uma crônica, de um artigo, será quase como a decoração de uma vitrine em tempo de Natal: Cores preestabelecidas, espaços ideais diagramados, enfim, um melancólico “faz como eu, ou estarás fazendo errado”.

As idéias, os sonhos, as fantasias, devem continuar voando livres, como borboletas de todas as cores e tamanhos, sem receio do patrulhamento das redes de aprisionar e dimensionar idéias ou borboletas. Por isso elas voam.
 


(18 de fevereiro/2006)
CooJornal no 464


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm