08/04/2006
Número - 471

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen



Foi boto, sinhá


 

 

Amiguinha dos meus cuidados quer ouvir uma história mágica? Quer? Pois bem, sente aqui perto de mim e escute com atenção.

Algum tempo depois de meu divórcio comprei um apartamento de quarto e sala, n° 204 (sobre o qual eu falo no meu livro "Poemas sem dono") e fui morar na Ilha do Mosqueiro, bem em frente à praia do Chapéu Virado.

Cavalgando minha motocicleta, que chamei de Rocinante, percorri, dia após dia, durante quase dois anos, as vinte praias da Ilha. As mais lindas de água doce do mundo e, também, segundo os ilhéus, as mais enfeitiçadas.

De noite, na sacada que ficava distante da água não mais que uns cinqüenta metros, escrevia até o sono chegar.

Numa certa madrugada de luar percebi, sem que me vissem, uma mocinha de cabelos longos indo ao encontro de um homem estranho que chegava, todo vestido, nadando na maré cheia.

Abraçaram-se e fizeram amor deitados na areia e sob a luz da lua. Depois, a moça subiu de volta ao passeio e o homem voltou para as ondas, nelas sumindo.

Esse namoro se repetiu muitas outras noites, sob meu olhar curioso. Um dia o escândalo estourou: Ela estava grávida. Assisti a jovem ser espancada pela mãe, pois dizia, insistentemente, que o pai da criança era o boto. Claro que ninguém acreditou nela. Eu, testemunha ocular, calei para não ser um dos suspeitos.

Gostou amiguinha? Se gostou, qualquer dia conto outra.


(08 de abril/2006)
CooJornal no 471


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm