29/04/2006
Número - 474

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen



A Poesia, Dona e Senhora


 

O verdadeiro poeta é secundário, uma vez que não é mais que um serviçal. Toda a grandeza está na Poesia, ama, patroa e afligente do poeta. Ela ordena e ele, humildemente, cumpre o determinado. Por isso é que vates como Drummond, Bandeira, Quintana, são humildes. Eles conhecem o seu lugar de escribas das ordens emanadas da Entidade Superior.

A vaidade não se coaduna com o autêntico fazedor de versos. O poetastro vaidoso é apenas um pavão querendo impressionar. Por algum tempo até consegue, depois se desfaz pela ausência da centelha mágica que nasce junto com aquele predestinado a ser a mão da Poesia.

Talvez seja essa a grande diferença entre o escritor e o poeta. Um relata ou romanceia a vida. O outro é mero intérprete, porta - voz da Poesia em suas múltiplas e diferentes visões dessa mesma vida.

Um exemplo maior de dominação pode ser visto em Vinícius de Moraes. O diplomata e autor de uma vasta e genial obra editada, de repente pendura o paletó e sai cantando, pelo mundo afora, letras lindíssimas feitas por ele para os sambas de seus incontáveis parceiros.

Com certeza, em determinada madrugada de drinques e peregrinações pelos bares, Vinícius foi escolhido pela Poesia para encarnar a figura do menestrel andarilho, mostrando a todos que Ela está em qualquer lugar em que exista um médium, ou, como querem alguns, um poeta.

O Poetinha fez direitinho tudo o que lhe foi mandado e a condescendente Senhora deu-lhe a imortalidade.



(29 de abril/2006)
CooJornal no 474


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
AlbertoLCohen@aol.com
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm