Pode-se imaginar, no Portugal do início do
século passado, o quanto de coragem foi preciso para a jovem Florbela d’Alma,
filha ilegítima, nascida em 1894 no Alentejo, conseguir o nível de ensino
superior e tornar-se poetisa, com méritos reconhecidos.
Vamos tentar acompanhar um pouco da trajetória dessa mulher com M
maiúsculo:
Em 1917, depois de formada em Letras, ingressou na faculdade de direito e,
em 1919, quando cursava o terceiro ano, publicou o seu primeiro título,
Livro de Mágoas (poesias).
Quatro anos depois, em 1923, veio a ser
editado o Livro de Sóror Saudade, também de poesias.
Seriam esses os dois únicos livros da escritora publicados com ela ainda
viva, embora em seu acervo constassem, além de suas Cartas, pelo
menos cinco outros títulos (inclusive dois de contos) editados
postumamente.
Mulher sensível, mas de forte personalidade, Florbela jamais foi ligada a
qualquer movimento literário, sofrendo, apenas, alguma influência de
Antero de Quental na técnica de escrever os sonetos que a tornaram famosa.
A temática preferida de seus versos é a do amor, da solidão e da ternura,
e a passionalidade deles faz com que, muitas vezes, sejam conceituados de
sensuais e até mesmo eróticos.
Sua obra é marcada profundamente pelas frustrações amorosas e pela morte
do irmão Apeles, ocorrida na queda do avião que ele pilotava em 1927.
Florbela Espanca é considerada dona de uma técnica primorosa e insuperável
na feitura do soneto, esse tipo de poesia tão difícil de ser construído.
Um belo exemplo é
Vaidade
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...
Em busca da felicidade, a escritora casou-se, sucessivamente, com Alberto
Moutinho (1913), Antonio Guimarães (1921) e, finalmente, com o médico
Mário Laje (1925), sem se importar com a sociedade altamente conservadora
da época e afrontando seus valores preconceituosos.
Em 2 de dezembro de 1930 seu Diário é encerrado com a seguinte frase:
e não haver gestos novos, nem palavras novas! Cinco dias
depois, no dia de seu aniversário, Florbela d’Alma da Conceição Espanca
suicida-se em Matosinhos, com uma dose excessiva de medicamentos.
Oficialmente, teria morrido de problemas pulmonares. É sabido, contudo,
que sofria há algum tempo de graves problemas psicológicos.
(03 de junho/2006)
CooJornal
no 479