03/06/2006
Número - 479

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen



Flor Bela




 

Pode-se imaginar, no Portugal do início do século passado, o quanto de coragem foi preciso para a jovem Florbela d’Alma, filha ilegítima, nascida em 1894 no Alentejo, conseguir o nível de ensino superior e tornar-se poetisa, com méritos reconhecidos.

Vamos tentar acompanhar um pouco da trajetória dessa mulher com M maiúsculo:

Em 1917, depois de formada em Letras, ingressou na faculdade de direito e, em 1919, quando cursava o terceiro ano, publicou o seu primeiro título, Livro de Mágoas (poesias).
Quatro anos depois, em 1923, veio a ser editado o Livro de Sóror Saudade, também de poesias.

Seriam esses os dois únicos livros da escritora publicados com ela ainda viva, embora em seu acervo constassem, além de suas Cartas, pelo menos cinco outros títulos (inclusive dois de contos) editados postumamente.

Mulher sensível, mas de forte personalidade, Florbela jamais foi ligada a qualquer movimento literário, sofrendo, apenas, alguma influência de Antero de Quental na técnica de escrever os sonetos que a tornaram famosa.

A temática preferida de seus versos é a do amor, da solidão e da ternura, e a passionalidade deles faz com que, muitas vezes, sejam conceituados de sensuais e até mesmo eróticos.

Sua obra é marcada profundamente pelas frustrações amorosas e pela morte do irmão Apeles, ocorrida na queda do avião que ele pilotava em 1927.

Florbela Espanca é considerada dona de uma técnica primorosa e insuperável na feitura do soneto, esse tipo de poesia tão difícil de ser construído. Um belo exemplo é

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
 

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
 

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
 

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...


Em busca da felicidade, a escritora casou-se, sucessivamente, com Alberto Moutinho (1913), Antonio Guimarães (1921) e, finalmente, com o médico Mário Laje (1925), sem se importar com a sociedade altamente conservadora da época e afrontando seus valores preconceituosos.

Em 2 de dezembro de 1930 seu Diário é encerrado com a seguinte frase: e não haver gestos novos, nem palavras novas! Cinco dias depois, no dia de seu aniversário, Florbela d’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, com uma dose excessiva de medicamentos. Oficialmente, teria morrido de problemas pulmonares. É sabido, contudo, que sofria há algum tempo de graves problemas psicológicos.




(03 de junho/2006)
CooJornal no 479


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@terra.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm