17/06/2006
Número - 481

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen



O pedreiro




 

Às pressas, engoliu o café ralo, sem graça e saiu, antes que recomeçassem as costumeiras reclamações da mulher.

Estava desempregado é verdade, mas que fazer se não encontrava, sequer, um “bico” em que pudesse desencavar alguns trocados? Época braba, essa, para o trabalhador! Ainda mais para quem, como ele, não tinha qualquer especialização. Era, apenas, braçal ou, como diziam, um burro de carga.

Iniciou sua longa peregrinação diária, procurando as ruas que ainda não havia percorrido, olhos atentos para que uma salvadora placa de oferta de serviço não passasse despercebida.

De repente, como uma visão, deparou com a milagrosa tabuleta de “PRECISA-SE”. Tentando acalmar o nervosismo, leu de novo o aviso e dessa vez por completo: “PRECISA-SE DE PEDREIROS”.

Desgraça! O mais perto que já havia chegado da massa de cimento fora carregando tijolos para a construção do muro da casa de um compadre. Sentiu na boca o gosto da cachaça bebida naquela tarde abençoada de “porre” e míseros ganhos.

O que fazer? Coçou a cabeça, pensou e, no desespero, resolveu tentar a sorte. Chegando-se ao portão de entrada, apresentou-se ao mestre de obra como candidato ao emprego, afirmando que era profissional e conhecedor do serviço.

Como aparentava convicção no que dizia, faltavam operários e a construção estava atrasada, imediatamente colocaram um capacete em sua cabeça e, quando deu por si, viajava no elevador de carga, subindo para um dos andares mais altos do edifício, contratado como pedreiro.

Ao perceber a altura em que estava e que somente quatro cordas e algumas tábuas o separavam da queda e da morte, começou a tremer, agarrando-se, freneticamente, aos cabos, ao mesmo tempo em que balbuciava o pouco que ainda lembrava do Padre Nosso.

Como desastre só quer começo, subitamente ouviu-se um estalo seco e forte: Partira-se um dos cabos do andaime que servia de elevador para o pobre coitado, e que, agora, pendia arriscadamente penso para um dos lados. Para complicar mais a situação, seus pés começaram a deslizar na madeira escorregadia, tudo indicando que a tragédia seria iminente, se um milagre não acontecesse.

Desesperado e chorando prometeu aos santos, anjos, caruanas e exus de que se recordou naquele transe, que, se escapasse com vida e inteiro da embrulhada em que estava metido, nunca mais mentiria, beberia cachaça, fumaria, espancaria a mulher ou chutaria o cachorro do vizinho.

Como se a veemente promessa houvesse sido escutada, embaixo os operadores do elevador conseguiram controlar as carretilhas e nivelar os cabos restantes, trazendo o apavorado passageiro para o chão firme e seguro.

Sentindo-se salvo e fora de perigo, cercado pelos outros operários que o felicitavam pelo seu milagroso renascimento, acendeu um cigarro e exclamou: “Este pedreiro velho aqui vai é tomar uma”!

Só faltava, agora, chutar o cachorro e dar uma surra na mulher...




(17 de junho/2006)
CooJornal no 481


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@terra.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm