
29/07/2006
Número - 487
ARQUIVO ALBERTO COHEN
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Alberto Cohen
A caneta
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Acordou sem saber, de imediato, onde estava.
Aos poucos foi percebendo os detalhes, a penumbra, a televisão que chiava
num canal fora do ar, o tapete em que derrubara o cinzeiro, o sofá onde
cochilara. Jamais a sala do apartamento pareceu tão grande e hostil.
Uma idéia ridícula que só poderia ocorrer àquela hora da madrugada, mas
que para ele adquiria contornos de grande seriedade e indagação social,
tomou conta de sua mente, ainda sonolenta: No meio dos sem-terra,
sem-teto, sem-trabalho, enfim, de tantos sem, imagine-se o escândalo que
seria o aparecimento repentino de alguém como ele, com uma existência
vazia, uma sala imensa e inútil, uma tv 42 polegadas, tela plana, fora do
ar, uma grande idéia jamais concluída, uma caneta esferográfica... Nesse
ponto, procurou a caneta nos dedos e, não a encontrando, começou a
vasculhar o pequeno território que, ultimamente, era seu centro de
referência: sofá, mesa lateral, estante, tapete... Nada! Onde diabos havia
se metido a maldita?
Encheu-se de importância, como se o mundo dependesse de seus escritos cada
vez mais raros e esbravejou, mentalmente, contra aquelas forças que o
impediam de cravar no papel imagens definitivas.
Inopinadamente veio a pergunta: e se achasse a caneta? Antes de cochilar
havia tentado, horas a fio, escrever algo original, ou nem tão original,
sem o menor sucesso.
Dignamente, levantou-se, recolheu o maço de cigarros, outros trastes
pessoais e foi dormir.
A ser um sem-idéias, preferiu, estrategicamente, ser um sem-caneta.
(29 de julho/2006)
CooJornal
no 487
Alberto Cohen
advogado,
poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@terra.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm
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