05/08/2006
Ano 10 - Número 488

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen

 

O patriota

 

João Batista, médio empresário de ramos variados, também se dedicava à sonegação de impostos, compra de objetos de origem duvidosa e, até mesmo, pequenos contrabandos. Era assim que engordava sua receita e conseguia veranear em diversos Estados, sendo citado, algumas vezes, em colunas sociais, com direito a fotografia e tudo!

 
Acontece que estávamos em plena época do regime militar e a repressão a subversivos e corruptos era feroz em todo o Brasil. Bem mais feroz a subversivos que a corruptos.
 
Em Belém do Pará, o centro de interrogatório preliminar dos acusados dessas práticas era no prédio da antiga alfândega, ali na Castilho França, quase defronte do galpão Mosqueiro / Soure.
 
Pois não é que, certo dia, o emergente João Batista recebeu uma intimação para comparecer ao temido casarão para esclarecimento de irregularidades atribuídas a sua pessoa?
 
Entrou em pânico, já sentindo, ou imaginando, a velha dor de barriga nervosa que o acometia quando estava com medo. Para ela não havia remédio nem vacina, senão um bom vaso sanitário.
 
Com a cabeça a mil por hora, tentou colocar em ordem os pensamentos e descobrir a origem do chamado que ninguém podia recusar.
 
Teria sido denúncia do safado do dono do imóvel onde tinha atividades comerciais, pela falta do pagamento de vários meses de aluguel? Quem sabe a Marita, sua amante, aborrecida por ele não abandonar a família para viver com ela, o alcagüetara?
 
Nessas suposições histéricas os dias foram passando, até que somente horas o separavam da entrevista que, frouxo como era, já vislumbrava repleta de alicates, torniquetes e outros instrumentos de persuasão.
 
Quando a esposa lhe trouxe o melhor terno para vestir, saiu do sério e, quase chorando, clamou: Estás louca? Queres que pensem que, além de ladrão, estou prosperando?
 
Sentado na cama, de cuecas, calçou um velho par de meias e um sapato esburacado, do tempo em que ainda era pobre e morava num quartinho de madeira no bairro da Matinha. Pediu a calça e a camisa mais avariadas que existissem na casa, de preferência, até, as do jardineiro, e, como um molambo, dirigiu-se para o calvário.
 
Tropeçando nos próprios pavores, chegou, finalmente, ao local do seu martírio e, resignado como os antigos cristãos de Roma, subiu as escadas até uma salinha escura e suja, onde se amontoavam vários outros candidatos a corruptos e subversivos.
 
Um por um, os presentes iam sendo chamados por um militar de baixa patente e desapareciam no corredor, levados, na certa, para outra sala.
 
Enquanto esperava a sua hora, João Batista percebeu que a conversa girava sobre o destino que aguardava a todos. Uma frase, contudo, ficou gravada na sua mente e no seu corpo transido de pavor: A barra está pesando mesmo é pros comunistas! Dita por um careca, desdentado, magro e com o olhar desesperado de quem já conhecia a tramitação, adquiria proporções de profecia.
 
Finalmente, somente João Batista se encontrava no recinto, uma vez que todos os outros haviam sido levados para seu incerto, ou certo, destino. Foi aí que a porta se abriu e um oficial dirigindo-se, com voz de inquisidor, ao soldado que tomava conta do quase desfalecido empresário, perguntou: Praça não posso perder tempo. Ainda tem alguém para ser atendido?
 
Atendido, da forma como foi pronunciado, parecia algo ligado à medicina, mais especificamente ao ramo da cirurgia. Dessa vez a dor de barriga não foi imaginada, mas concretizada.
 
Levantando-se da cadeira, o soldado respondeu: Não, capitão. Só mais esse subversivo aí.
 
Com uma agilidade insuspeita para seu estado de nervos e de higiene, João Batista, num salto de animal ferido, perfilou-se empertigado e gemeu estridente: Égua! Espera aí! Corrupto sim, mas subversivo, coisa nenhuma, nem morto! E esmurrava, patriota e com a mão fechada, o peito e, por tabela, o coração que nunca fora tão verde-e-amarelo.




(05 de agosto/2006)
CooJornal no 488


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@terra.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm