João Batista, médio empresário de
ramos variados, também se dedicava à sonegação de impostos, compra de
objetos de origem duvidosa e, até mesmo, pequenos contrabandos. Era
assim que engordava sua receita e conseguia veranear em diversos
Estados, sendo citado, algumas vezes, em colunas sociais, com direito a
fotografia e tudo!
Acontece que estávamos em plena
época do regime militar e a repressão a subversivos e corruptos era
feroz em todo o Brasil. Bem mais feroz a subversivos que a corruptos.
Em Belém do Pará, o centro de
interrogatório preliminar dos acusados dessas práticas era no prédio da
antiga alfândega, ali na Castilho França, quase defronte do galpão
Mosqueiro / Soure.
Pois não é que, certo dia, o
emergente João Batista recebeu uma intimação para comparecer ao temido
casarão para esclarecimento de irregularidades atribuídas a sua
pessoa?
Entrou em pânico, já sentindo, ou
imaginando, a velha dor de barriga nervosa que o acometia quando estava
com medo. Para ela não havia remédio nem vacina, senão um bom vaso
sanitário.
Com a cabeça a mil por hora,
tentou colocar em ordem os pensamentos e descobrir a origem do chamado
que ninguém podia recusar.
Teria sido denúncia do safado do
dono do imóvel onde tinha atividades comerciais, pela falta do pagamento
de vários meses de aluguel? Quem sabe a Marita, sua amante, aborrecida
por ele não abandonar a família para viver com ela, o alcagüetara?
Nessas suposições histéricas os
dias foram passando, até que somente horas o separavam da entrevista
que, frouxo como era, já vislumbrava repleta de alicates, torniquetes e
outros instrumentos de persuasão.
Quando a esposa lhe trouxe o
melhor terno para vestir, saiu do sério e, quase chorando, clamou:
Estás louca? Queres que pensem que, além de ladrão, estou prosperando?
Sentado na cama, de cuecas, calçou
um velho par de meias e um sapato esburacado, do tempo em que ainda era
pobre e morava num quartinho de madeira no bairro da Matinha. Pediu a
calça e a camisa mais avariadas que existissem na casa, de preferência,
até, as do jardineiro, e, como um molambo, dirigiu-se para o calvário.
Tropeçando nos próprios pavores,
chegou, finalmente, ao local do seu martírio e, resignado como os
antigos cristãos de Roma, subiu as escadas até uma salinha escura e
suja, onde se amontoavam vários outros candidatos a corruptos e
subversivos.
Um por um, os presentes iam sendo
chamados por um militar de baixa patente e desapareciam no corredor,
levados, na certa, para outra sala.
Enquanto esperava a sua hora, João
Batista percebeu que a conversa girava sobre o destino que aguardava a
todos. Uma frase, contudo, ficou gravada na sua mente e no seu corpo
transido de pavor: A barra está pesando mesmo é pros comunistas!
Dita por um careca, desdentado, magro e com o olhar desesperado de quem
já conhecia a tramitação, adquiria proporções de profecia.
Finalmente, somente João Batista
se encontrava no recinto, uma vez que todos os outros haviam sido
levados para seu incerto, ou certo, destino. Foi aí que a porta se abriu
e um oficial dirigindo-se, com voz de inquisidor, ao soldado que tomava
conta do quase desfalecido empresário, perguntou: Praça não posso
perder tempo. Ainda tem alguém para ser atendido?
Atendido, da forma como foi
pronunciado, parecia algo ligado à medicina, mais especificamente ao
ramo da cirurgia. Dessa vez a dor de barriga não foi imaginada, mas
concretizada.
Levantando-se da cadeira, o
soldado respondeu: Não, capitão. Só mais esse subversivo aí.
Com uma agilidade insuspeita para
seu estado de nervos e de higiene, João Batista, num salto de animal
ferido, perfilou-se empertigado e gemeu estridente: Égua! Espera aí!
Corrupto sim, mas subversivo, coisa nenhuma, nem morto! E esmurrava,
patriota e com a mão fechada, o peito e, por tabela, o coração que nunca
fora tão verde-e-amarelo.
(05 de agosto/2006)
CooJornal
no 488