
19/08/2006
Ano 10 -
Número 490
ARQUIVO ALBERTO COHEN
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Alberto Cohen
Urubus
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Os dois urubus eram amigos desde pequenos.
Aprenderam voar juntos e até carniça dividiram, algumas vezes, como se
fossem irmãos.
Durante a fase da adolescência, com os problemas próprios da idade, haviam
descoberto o Ver-o-Peso e enturmado na vagabundagem com os outros urubus
que ali passavam o dia, sujos de lama, comendo detritos, mas se divertindo
a valer.
Uma noite, preparados para dormir debaixo da maior chuva, começaram a
conversar para esperar o sono, trocando confidências, como sempre fazem
amigos-irmãos. Um deles, o mais novo, reclamou da vida que levavam,
sujeitos a temporais e trovoadas, tomando pedradas dos moleques da feira
e, além disso, mal alimentados, tendo como prato diário a podridão abjeta
jogada no lamaçal e, mesmo assim, após disputá-la com os demais parceiros.
Não agüentava mais, principalmente depois de uma conversa que tivera com
uma velha coruja, moradora do antigo necrotério, que lhe deu conhecimento
da existência de uma terra farta e próspera, verdadeiro Eldorado que
existia no sul, denominada São Paulo. Estava determinado a voar para lá em
busca de luxo e fartura e esperava que o amigo fosse junto.
De fato, no dia seguinte bem cedo partiu sozinho para a viagem, pois o
outro se recusara a acompanhá-lo, apaixonado que estava por uma fêmea
linda e boa de lama.
Muito tempo passou sem que se tivesse notícia do urubu retirante, até que
um dia, próximo do Círio, o patife apareceu no seu antigo reduto. Gordo,
com as penas vistosas e o bico brilhante, era a própria imagem do
vencedor.
Cercado pelos antigos companheiros, ansiosos por novidades, revelou que
estava apenas de visita para matar saudades e que breve, depois da Festa,
retornaria ao sul do país,
Particularmente, ao seu amigo querido narrou as delícias da terra que
escolhera para morar, verdadeiro paraíso em que as aves de rapina comiam
do bom e do melhor, sem nenhum esforço, dormiam no alto dos edifícios,
protegidas contra as intempéries, e não se promiscuíam com podridão e
sujidade. As fêmeas eram todas bonitas, educadas e acessíveis. Enfim, o
céu na terra, onde os urubus só faziam comer, transar e dormir. Por isso
estava tão gordo e saudável.
Terminada a Festa de Nazaré, depois de abraçar o velho camarada que
chorava de saudades antecipadas e também de inveja, novamente partiu
dizendo que dessa vez não mais voltaria.
Anos passados, porém, o urubu paraense chega ao Ver-o-Peso e encontra
chafurdando na lama, como nos velhos tempos, nada mais, nada menos que o
urubu sulista por opção.
Como pôde voltar para a miséria e imundície, abandonando todo o conforto e
abastança que havia descrito? E o filho pródigo explicou: “Mano, eu já
estava de saco cheio de tanto refinamento e preguiça, e com saudade desta
bandalheira”.
Correndo de banda, uma asa estendida para a frente e a outra para trás,
cabeça pendida para o lado como um bom malandro, completou: “Aqui, meu
irmão, é que mora a sacanagem”. E saltou no meio dos outros, no roça-roça
da disputa pela buchada de um peixe podre.
(19 de agosto/2006)
CooJornal
no 490
Alberto Cohen
advogado,
poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@terra.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm
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