22/08/2009
Ano 12 - Número 646

ARQUIVO
ALBERTO COHEN




   

Alberto Cohen

 

O grande homem que sumiu



 

Certo dia acordou sentindo-se menor. Foi ao espelho e não notando diferenças creditou à imaginação aquela sensação.

Pouco a pouco, no entanto, fazia-se mais intenso nele o sentimento de decrescer. Cada dia um pouco, até que as diferenças começaram a tomar formas visíveis: roupas maiores, braços e pernas menores e, pior, a atividade cerebral diminuindo passo a passo. O que estaria acontecendo? Era a pergunta que se fazia.

Consultou médicos, espiritualistas, e cada um tinha uma explicação própria para o fato. Para os doutos era a própria idade (já passava da casa dos sessenta) para os médiuns sofria da influência de algum desencarnado querendo apossar-se de seu corpo. E assim foi cada vez menor, já usando as roupas do filho adolescente. Saía à rua e as pessoas o chamavam de “baixinho”, ele que sempre fora considerado um homem alto.

As idéias não vinham mais com a mesma facilidade e a fluência de antigamente. A mente também estaria encolhendo? Não havia explicação plausível, pois interiormente sentia-se o mesmo homem.

Socialmente, começou a ser tratado de acordo com sua pequenez física, incluindo a mental: aceitava ofensas, tropeçava nas calçadas, hesitava nas respostas (sempre monossilábicas) e passava quase despercebido por onde andava.

Um dia chamaram-no de anão retardado e sequer revidou por saber que não estavam muito longe da verdade.

Encolheu, encolheu tanto que não mais ia à rua com receio do ridículo de usar as vestes do filho de pouco mais de dois anos e haver esquecido completamente de falar ou escrever o próprio idioma. Logo ele que um dia havia sonhado ser escritor...

Finalmente sumiu. Foram encontrados no berço onde havia dormido, apenas seus sapatinhos, uma fralda de recém nascido úmida de urina, e, arranhados com as unhas nas fronhas dos travesseiros, inexplicáveis “bas, blas, blas, bas...

Era, talvez, seu testamento ou, quem sabe, sua última criação literária.

Moral da história? Cresce e desaparece!



(22 de agosto/2007)
CooJornal no 646


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@terra.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm