16/08/201
Ano 16 - Número 853



ARQUIVO ALBERTO COHEN

Alberto Cohen
em Expressão Poética

 

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Alberto Cohen


Samaumeira

 

 

Alberto Cohen, colunista - CooJornal

Obsoleta e esquecida na antiga praça, suas raízes que afloram à superfície, rompendo o cimento, são tentáculos de um ser estranho que se recusou a morrer junto com uma época: Tempo dos bondes, do Arraial, da Barraca de Santo Antônio em que as famílias jantavam nos quinze dias da Festa, os homens sempre de paletó e gravata.

Samaumeira que acompanhou as santas loucuras do padre Afonso em seu sonho de transformar uma capela em Basílica. Samaumeira do Largo de Nazareth.

Depois, o progresso. Paralelepípedos e trilhos cobertos por aquela massa escura chamada asfalto, bondes substituídos por ônibus movidos pela fedorenta gasolina, e ela, impávida, a tudo assistindo, fiel às suas raízes.

Um dia sumiram os coretos, levados não se sabe por quem, ou para aonde. Perplexa, assistiu ao extermínio do Arraial, como se não fosse ele símbolo da tradição de um povo tão carente de tradições e símbolos.

Gradearam toda a Praça e transformaram-na num complexo de cimento e mármore, belo e frio, muito distante da simplicidade ingênua de outrora.

A samaumeira, velha de cem anos, entendeu, naquele momento, que terminara um ciclo do qual era remanescente e quedou-se, quieta, como para não ser notada. Até mesmo suas plumas, que eram sopradas pelo vento num balé cheio de trejeitos e negaças, não mais enfeitaram o bairro. E ninguém notou.

Os periquitos, no entanto, não a esqueceram e fazem festa nos seus galhos todos os dias. Nessas horas, a samaumeira acorda julgando haver chegado, de novo, o tempo dos carrosséis e cavalinhos.
 

(16 de agosto/2013)
CooJornal nº 853



Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@yahoo.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm


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