23/08/201
Ano 16 - Número 854



ARQUIVO ALBERTO COHEN

Alberto Cohen
em Expressão Poética

 

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Alberto Cohen


Mesmo sol, velho dia

 

 

Alberto Cohen, colunista - CooJornal

Sento na poltrona da sala desta casa cinzenta e acendo um cigarro. Mais um desbravador a percorrer os caminhos do câncer.

Na estante os livros que li tantas vezes, mas não leio mais, e, do retrato, meu filho parece convocar-me para aquela conversa milhões de vezes adiada e que agora perdeu o sentido.

Fui e sou um caçador de momentos mudados em séculos de solidão que já nem dói mais por ser tão costumeira. Eu sou a própria solidão com seus pavores abissais, covardia estampada no rosto e versos inúteis. De onde vim é exatamente onde estou: um solitário útero em que procuro sobreviver aos nove milênios de esperas.

Nos metros quadrados construídos para risos e projetos, pairo, lentamente, levado pelas manias cotidianas de olhar o rio, tentar escrever e lembrar. Ah, lembrar... Se não fosse isso, seria aquilo; não fosse a escolha, seria o quê? Melhor? Pior? Talvez a mesma penitência; quem sabe esse é o destino do homem em seus latifúndios de imperito viver.

E a pasmaceira desta vida perplexa e modorrenta a escoar pelas fronteiras da sala, do quarto e do espelho sem uso. A barba por fazer e amanhã já é sábado. Roda moinho, roda-gigante, roda moinho, roda pião, o tempo passou num instante...

O que diziam os livros que nem lembro mais? E qual seria a conversa com meu filho tantas vezes adiada? Vai ver, ele também não sabe, pois nem era tão importante, digna de ser recordada.

É pouco, é muito pouco o muito acumulado. Não dá para trocar a vida numa concessionária.

Entorpecer, entorpecer, entorpecer... Conhaque não é o mesmo que absinto.


(23 de agosto/2013)
CooJornal nº 854



Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@yahoo.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm


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