13/09/201
Ano 16 - Número 857



ARQUIVO ALBERTO COHEN

Alberto Cohen
em Expressão Poética

 

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Alberto Cohen


Pacto

 

 

Alberto Cohen, colunista - CooJornal

Eu era Delegado de Polícia e estava de plantão naquela noite de um ano da década de setenta.

Recebemos uma comunicação de duplo suicídio e desloquei-me até o local para preservá-lo. Era um apartamento bastante antigo e deteriorado, em cima de uma farmácia. Ao entrar percebi que todas as frestas e aberturas haviam sido tapadas com fita gomada e ainda se sentia um cheiro de gás espalhado no ambiente.

Depois de abrir todas as janelas, fui até o quarto onde se encontravam os corpos deitados na cama. Um casal de velhinhos bem idosos, os dois tão arrumadinhos e perfumados que pareciam prontos para uma festa, deitados e abraçados como se quisessem partir juntos na viagem.

Os vizinhos informaram que eram sós, sem filhos, ele, pequeno funcionário público aposentado, ela, do lar, e estavam, ultimamente, atravessando uma fase de graves problemas de saúde e dinheiro. Fiquei emocionado, mas, depois da chegada da perícia, tive que voltar para o meu posto.

Durante muitos anos aqueles velhinhos e a mensagem que haviam deixado no seu gesto extremo estiveram em minha memória. Em 2003, já aposentado, tive finalmente coragem de escrever um poema para os dois e criei "Pacto". Com ele, no meio de mais de duzentos concorrentes, consegui o 1º Prêmio da Casa do Poeta Brasileiro - POEBRAS - Bahia.

Pobres amiguinhos que quietinhos retiraram-se de cena com dignidade, sem saber que se tornariam poesia. Romeu e Julieta de mais de oitenta anos...


Pacto
1° Lugar no IV Concurso Nacional de Poesia
da Casa do Poeta Brasileiro-Poebras-BA-2004.



Vedaram portas, balancins, janelas,
exorcizando o mundo das buzinas,
das prestações vencidas e mazelas.
Depois beijaram o beijo apaixonado
que há muitos anos não beijavam mais,
como dois namorados nas esquinas,
novamente um casal entre os casais.
Dançaram uma valsa das antigas,
lindos, vestidos como dançarinos
eternizados num salão de baile,
e sorriram no mesmo encantamento
do tempo dos saraus e das cantigas,
de mãos dadas, somente dois meninos,
transplantados do feio apartamento.
No código lascivo do passado,
disseram coisas livres e excitantes,
num olhar de posse ou possuídos.
Finalmente, deitados lado a lado,
Romeu e Julieta revividos,
flutuaram no gás do aquecimento.



(13 de setembro/2013)
CooJornal nº 857



Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@yahoo.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm


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