25/10/2013
Ano 17 - Número 863



ARQUIVO ALBERTO COHEN

Alberto Cohen
em Expressão Poética

 

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Alberto Cohen


Predador
 

 

Alberto Cohen, colunista - CooJornal

Bem que eu podia ser um pássaro. Não um canário, um curió, mas um predador como o gavião. Não importava que não soubesse cantar. Para que se ninguém escuta? E, no fim, o destino é esse mesmo, cantar à toa e de graça pelas florestas de cimento em que os ouvidos são moucos e a pressa de buscar alguma coisa indefinida é tanta que não se pode parar para ouvir.

Como gavião os céus estavam abertos para meus voos e, quem sabe, a mesma música que escuto, desde que nasci, continuava a tocar dentro de mim, sem essa necessidade obsessiva de ser ouvida. Pilhava o melhor, sem precisar das sobras de aplausos medidos e contados. “Sou carniceiro, não sei cantar e ponto. Abram alas que vou passar com minha ferocidade”.

Eventualmente, ao ouvir um passarinho gorjeando, lembrava meus tempos de igual e, às escondidas, derramava uma lágrima de frustração e saudade. Rapidamente, sacudia as penas e voava em busca de um novo repasto.

Outras vezes, mais escondido ainda, tentava emitir um trinado, mas o som rascante que saía da garganta lembrava-me a vocação de estraçalhar ao invés de cantar. Sou gavião, dizia, voava para junto de outros gaviões e com eles ridicularizava os passarinhos.

Acasalava, sem delongas e cantorias que me prendessem ao ninho, e partia deixando fêmea e filhotes para trás, como futuros rivais nas disputas por territórios. Para ser forte um gavião deve ser solitário e sem raízes.


(25 de outubro/2013)
CooJornal nº 863



Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@yahoo.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm


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