15/11/2013
Ano 17 - Número 866



ARQUIVO ALBERTO COHEN

Alberto Cohen
em Expressão Poética

 

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Alberto Cohen


Coração de Passarinho

 

Alberto Cohen, colunista - CooJornal


In memoriam de meu filho Daniel


Daniel era uma criança cheia de emoções e uma atenção enorme para com as coisas da natureza, principalmente os seres que o homem convencionou chamar de irracionais. Dentre todos eles, Daniel sentia atração irresistível pelos passarinhos, essas pequeninas letras aladas com as quais Deus compõe os seus poemas.

Encantava-se com as asinhas frágeis que, no entanto, eram capazes de impulsioná-los em vôos acrobáticos e, ao mesmo tempo, seguros; comovia-se ao vê-los beber água, erguendo os biquinhos para o céu, como a agradecer ao Criador por aquela dádiva; esquecia-se do mundo, inebriado por seus cânticos, sons que jamais seriam igualados pelos instrumentos musicais mais perfeitos inventados pelo homem; finalmente, sonhava que um dia voaria também, não em avião, desajeitado monte de metais, mas com as próprias asas, seguindo os passarinhos, sem destino certo, pela liberdade dos céus.

Para ficar mais perto das aves que tanto amava, pediu aos pais que fossem morar em um dos andares mais altos de enorme arranha-céu e de lá, de sua sacada, passou a imaginar que estava numa frondosa árvore, onde tinha seu ninho, rodeado pelos amigos alados.

Um dia, ao acordar, a curiosidade do menino foi despertada por um sabiá que, ofegante, repousava no chão do quarto. Aproximou-se, tomou-o nas mãos e percebeu que uma das patinhas da ave estava machucada, talvez por alguma pedrada. O sabiá, como se instintivamente reconhecesse um amigo, deixou-se ficar, docilmente, nas mãos que o acalentavam e improvisavam um curativo para o ferimento.

A partir daquele dia, Daniel passou a ser um verdadeiro “médico” para seu amiguinho, abrigando-o numa caixa de sapatos forrada de retalhos e tratando-o tão bem que rapidamente a ferida começou a cicatrizar e o sabiá até já cantava, como se anunciasse que a partida estava próxima.

E esse dia chegou! Daniel foi surpreendido pelo passarinho que na sacada improvisava voos curtos, como experimentando a resistência para o retorno à vida normal.

Sentindo que breve iria se separar do amigo tão querido, Daniel começou a falar consigo mesmo: “Logo estarás voando, livre, sem qualquer fronteira, pelos espaços abertos, sem limites, sem destino senão voar e cantar pelos caminhos do mundo, enquanto ficarei preso nesta caixa de concreto. Sinto alegria por ti, que serás liberto, e tristeza por não poder te acompanhar nessa aventura. Que pena que não saibas falar para dizeres adeus”.

Para surpresa do garoto, o sabiá voou até seu ombro e respondeu:
“Existem muitas formas de falar. Delas, a mais verdadeira é a do coração e com ele eu sei falar. Tu não tens asas, mas podes voar com o coração, aliás, através dele tudo se pode fazer. Pelo coração quase me transformei num menino; pelo coração voarás comigo sempre e sempre estarei contigo em teus vôos de ser humano. Estou confuso e nem sei mais se sou passarinho ou menino, mas, com certeza, sei que tens e terás, sempre, um coração de passarinho”.

E voou. E Daniel voou com ele.



(15 de novembro/2013)
CooJornal nº 866



Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@yahoo.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm


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