
29/08/2008
Ano 12 - Número 596
ARQUIVO AMORIM

Luiz Carlos Amorim
em Expressão Poética
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Luiz Carlos Amorim
O LIVRO ILEGÍVEL
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Li recentemente “Sambaqui”, o mais recente romance
de Urda Alice Klueger, livro que recomendo, e depois acabei de ler “1808”, livro
do jornalista Laurentino Gomes, que tem o curioso subtítulo “Como uma rainha
louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a
História de Portugal e do Brasil”. O livro é resultado de dez anos de pesquisa
investigativa e resgata um pouco da história da corte portuguesa no Brasil, da
verdadeira história, não aquilo que lemos nos livros didáticos, superficiais e
vagos. Vale a pena ler o livro com suas 414 páginas, para saber como e porque a
família real portuguesa fugiu para o Brasil e como foi o reinado de D. João VI,
um rei gordo e comilão, ainda que bonachão, que tinha medo de tomar decisões,
mas que se manteve no poder. E as transformações que o Brasil sofreu com a
“invasão” dos portugueses, que culminaram com a nossa independência. É curioso,
interessante e divertido. O autor conseguiu fazer com que uma narrativa
histórica tomasse ares de romance, com um tom leve e agradável.
Antes de ler esses dois bons livros, já tinha começado a ler “Ulysses”, de James
Joyce, mas como o livro havia se revelado hermético desde o início – eu havia
conseguido ler as primeiras cento e cinqüenta páginas, com muito custo – resolvi
me dar uma folga. Como prometi a mim mesmo que iria ler aquele livro até o fim,
tentei retomar a leitura.
Tenho o livro há anos, mas como ele tem oitocentos e cinqüenta e duas páginas,
só há pouco tempo resolvi lê-lo, porque afinal de contas, ele é um clássico. E
me decepcionei. Já li outros tantos clássicos da literatura universal, como
Germinal, de Zola, O Sol Também se Levanta, de Hemingway, As Vinhas da Ira, de
Steinbeck, A Idade da Razão, de Sastre, A Peste, de Camus, O Precesso, de Kafka,
e outros, mas nenhum foi tão difícil, tão ruim como Ulysses.
Depois de umas quantas páginas, ao perceber que não havia uma história, apenas
um amontoado de trechos de conversas sem muito sentido e um emaranhado de
descrições e narrativas enfadonhas feitas por narradores diferentes, sem
linearidade, que mudam de repente e não se sabe quem está contando a história
(história?), além de invenção de palavras, palavras valise, erros de composição,
ausência de pontuação em muitos trechos, repetição à exaustão do termo “no que”,
que poderia ser substituído por “então”, “ao mesmo tempo” e tantas outras
expressões e muito uso citações em línguas diferentes, resolvi pesquisar para
saber o que diziam da obra.
Fiquei sabendo que o livro carrega, desde que foi publicado a primeira vez, a
fama de não ter sido lido até o fim por ninguém. Antonio Houaiss tinha uma nova
versão revisada da tradução de “Ulysses”, antes de morrer, sinal de que para ele
fora muito difícil o trabalho de verter para o português um texto onde
proliferam aglutinações de palavras (valises) e uso de outros idiomas, mais de
vinte deles, além do inglês. Soube que há, ainda, outras traduções para o
português, mas desconfio que parte da má qualidade do texto se deve às
tentativas de verter tão complicado livro para a nossa língua. Como traduzir um
texto tão grande, coalhado de palavras aglutinadas, outras inventadas, além de
citações em outras línguas, sem cometer equívocos? Sem contar que o vocabulário
era o do começo do século passado. Era uma obra diferente, difícil, sem qualquer
possibilidade de prender o leitor, que revolucionou os meios literários da época
justamente por quebrar todos os padrões literários então vigentes.
Fui ler a apresentação do romance no volume que tenho, publicado em 1983, para
tentar descobrir porque ele é tido como um clássico literário. Lá encontrei que
“A ação de “Ulysses” transcorre em Dublin num único dia, 16 de julho de 1904. A
divisão ternária, em perfeita simetria, evoca as significações cabalísticas do
três. Estudos de lingüística, com auxílio de computador, dão “Ulysses” como a
obra de estrutura matematicamente mais perfeita de toda a literatura.” (Então
por isso é um clássico? Como nós, leitores comuns, pobres mortais, poderíamos
saber disso? E o que interessa isso para o leitor? Mas tem mais.)
“A linguagem utilizada por Joyce, que vai do poema à ópera, do sermão à farsa,
contém não apenas termos usuais – da prosa clássica a mais grosseira gíria (de
1921?) – mas também elementos criados pelo escritor com base em seus
conhecimentos de latim, grego, sânscrito e mais dezenas de outros idiomas.”
Apesar disso, acho mesmo que “Ulysses” é um clássico e continua sendo publicado
porque Joyce pretendeu fazer um paralelo com a “Odisséia” de Homero, segundo
consta da mesma apresentação, cuja parte transcrevi acima. As personagens
centrais de ‘Ulysses” teriam correspondência com os protagonistas da epopéia
grega.
Não pude comprovar isso, pois o texto é desinteressante, disperso, cansativo, o
tipo da leitura que não desperta curiosidade nenhuma, não faz com que se tenha
vontade de continuar lendo. A gente lê um parágrafo e quando começa o seguinte
já esqueceu totalmente o que havia no anterior. O romance (?) não prende o
leitor e estou fadado a não contrariar a fama do livro de não haver quem o tenha
lido até o final. Tento ler mais, mas o progresso é lento e a esperança de que o
texto melhore se revela vã. Serei mais um a engrossar as fileiras dos que não
conseguiram terminar a leitura do calhamaço entupido de estilos e de pretensões
diversos. Por falar nisso, o autor confessa que imita, neste livro, estilos de
dezenas de grandes escritores da sua época e de antes dele.
Então leio mais algumas páginas e começo a ler “O Caçador de Pipas”, para
compensar. Quem sabe depois volto a ler mais algumas páginas de “Ulysses”. Nada
me atrai para lá, mas vou tentar.
(29 de agosto/2008)
CooJornal no 596
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