20/08/2004
Ano 8 - Número 382

ARQUIVO AMORIM

 

Luiz Carlos Amorim



AS CHUVAS DA MINHA INFÂNCIA
 
 
 
 
 

Esta noite acordei com a chuva batendo na minha janela. Não fiquei contrariado de ter acordado com o barulho dos pingos contra o vidro, porque gosto de chuva. Sempre gostei. Gosto de dormir com o tamborilar dos pingos no telhado (morei a maior parte da minha vida em casas e estou quase me mudando para uma delas de novo, graças a Deus!) ou na janela. Que eu me lembre, só fico chateado quando chove muito nas épocas da florescência do ipê, do jacatirão, do flamboian, da azaléia e do olho de boneca (um tipo de orquídea comum nesta região), pois as flores caem mais depressa porque ficam pesadas com o excesso de água e porque apodrecem. E quando a chuva me pega desprevenido no meio da rua.

Mas como dizia, choveu esta noite e os pingos na janela fizeram com que me reportasse a minha infância, já um tanto distante. O tamborilar que agora me traz uma sensação de paz e melancolia, naqueles tempos de garoto, idos tempos, faziam com que eu e meus irmãos grudássemos nossos narizes nos vidros das janelas e olhássemos para fora, com uma vontade enorme de sair e brincar, descalços, na água que corria ao lado da casa e junto da calçada.

Nossa mãe, no entanto, alerta, nos detinha. Mas em ela se descuidando um segundo, lá estávamos nós, fazendo festa debaixo da chuva, jogando água um no outro, estancando-a em pequenos lagos e soltando barquinhos de papel na corredeira, os cabelos escorridos e a roupa encharcada, com aquele ar de felicidade que só criança tem.

Aqueles dias se foram e eu não corro mais na chuva. Quando me molho, ao apanhar chuva, fico aborrecido por que vou chegar molhado em algum lugar. Não consigo mais ser criança como antes. E gostaria de poder. Porque acho que ainda sou um pouquinho criança dentro deste corpo que vai envelhecendo e ficando cansado.

Amanhã, quem sabe, talvez eu saia descalço e de peito nu, a cantar pela chuva. Se você encontrar um maluco molhado cantando e dançando pela rua, num dia de chuva, não se assuste. Pode ser que seja eu.



(20 de agosto/2004)
CooJornal no 382


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC