| Luiz Carlos Amorim
A ÚLTIMA NOITE
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Seu Antonio já estava aposentado e, a despeito dos seus mais de sessenta
anos, ia a todos os lugares com sua inseparável bicicleta que ele chamava
carinhosamente de Florisbela. Gostava da sua cervejinha e de um jogo de
cartas com os amigos no boteco da esquina. Não se considerava velho,
absolutamente: fazia questão de frisar que se sentia jovem como um garoto,
apesar da idade. Era viúvo, tinha filhos e netos, mas não os incomodava.
Apenas queria viver, a seu modo, o tempo que lhe restava e que, segundo ele,
era grande.
Uma noite, depois do jogo com os amigos, resolveu sair da rotina e tomar uma
cerveja em outro lugar qualquer. Joãozinho, um dos amigos mais chegados,
dispôs-se a acompanhá-lo e sugeriu que fossem beber numa das casas suspeitas da
cidade, onde estariam bem acompanhados. E lá se foram os dois, o seu
Antonio dando carona ao Joãozinho na Florisbela.
Quando chegaram à primeira "casa" do caminho, o velho encostou a bicicleta num
canto e foi entrando, pedindo logo pela cerveja. Uma das meninas veio trazer a
bebida e já ficou sentada no colo do seu Antonio. Colocou a cerveja nos copos,
mas não chegou a bebê-la, pois Laurinha, muito à vontade, já o abraçava e lhe
aplicava uns beijos molhados.
Ele não se fez de rogado e rumaram para um dos quartos. Afinal, pensou - não sou
tão velho assim e já estou viúvo há bastante tempo.
- Hoje é festa - disse, sorrindo - e foi tirando a roupa, enquanto Laurinha, que
a despeito do nome era até bem volumosa, ia tirando a dela. Despiram-se
rapidamente e jogaram-se na cama. Seu Antonio parecia mesmo um garoto. De
repente, no entanto, com um gemido, caiu sobre Laurinha, não levantando mais. A
mulher começou a gritar, tentando afastar o peso de cima dela.
O dono da casa bateu à porta e, como ninguém a abrisse e Laurinha continuasse a
gritar, arrombou-a. Atrás dele, homens e mulheres semi-nus, vestindo suas
roupas, vinham ver o que estava acontecendo. Constatando que o velho realmente
passava mal, vestiram-no de qualquer jeito e colocaram-no em um carro, levando-o
para o hospital. Ele estava quase desfalecido, mas ainda gemia.
No hospital, o médico atendeu prontamente, mas ele morreu em seguida. Fora o
coração.
No dia seguinte, o enterro saiu da casa da filha. Mais tarde, alguém foi apanhar
a Florisbela, que ficara onde fora deixada pelo dono, indiferente a tudo...
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(30 de outubro/2004)
CooJornal no 392
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
Prosa,
Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC