30/10/2004
Ano 8 - Número 392

ARQUIVO AMORIM

 

Luiz Carlos Amorim



A ÚLTIMA NOITE
 
 
 

Seu Antonio já estava aposentado e, a despeito dos seus mais de sessenta  anos, ia a todos os lugares com sua inseparável bicicleta que ele chamava carinhosamente de Florisbela. Gostava da sua cervejinha e de um jogo de  cartas com os amigos no boteco da esquina. Não se considerava velho, absolutamente: fazia questão de frisar que se sentia jovem como um garoto, apesar da idade. Era viúvo, tinha filhos e netos, mas não os incomodava.  Apenas queria viver, a seu modo, o tempo que lhe restava e que, segundo ele,  era grande.

Uma noite, depois do jogo com os amigos, resolveu sair da rotina e tomar uma  cerveja em outro lugar qualquer. Joãozinho, um dos amigos mais chegados,  dispôs-se a acompanhá-lo e sugeriu que fossem beber numa das casas suspeitas da cidade, onde estariam bem acompanhados. E lá se foram os dois, o seu  Antonio dando carona ao Joãozinho na Florisbela.

Quando chegaram à primeira "casa" do caminho, o velho encostou a bicicleta num canto e foi entrando, pedindo logo pela cerveja. Uma das meninas veio trazer a bebida e já ficou sentada no colo do seu Antonio. Colocou a cerveja nos copos, mas não chegou a bebê-la, pois Laurinha, muito à vontade, já o abraçava e lhe aplicava uns beijos molhados.

Ele não se fez de rogado e rumaram para um dos quartos. Afinal, pensou - não sou tão velho assim e já estou viúvo há bastante tempo.

- Hoje é festa - disse, sorrindo - e foi tirando a roupa, enquanto Laurinha, que a despeito do nome era até bem volumosa, ia tirando a dela. Despiram-se rapidamente e jogaram-se na cama. Seu Antonio parecia mesmo um garoto. De repente, no entanto, com um gemido, caiu sobre Laurinha, não levantando mais. A mulher começou a gritar, tentando afastar o peso de cima dela.
 
O dono da casa bateu à porta e, como ninguém a abrisse e Laurinha continuasse a gritar, arrombou-a. Atrás dele, homens e mulheres semi-nus, vestindo suas roupas, vinham ver o que estava acontecendo. Constatando que o velho realmente passava mal, vestiram-no de qualquer jeito e colocaram-no em um carro, levando-o para o hospital. Ele estava quase desfalecido, mas ainda gemia.

No hospital, o médico atendeu prontamente, mas ele morreu em seguida. Fora o coração.

No dia seguinte, o enterro saiu da casa da filha. Mais tarde, alguém foi apanhar a Florisbela, que ficara onde fora deixada pelo dono, indiferente a tudo...


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(30 de outubro/2004)
CooJornal no 392


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC