14/05/2005
Ano 8 - Número 420

ARQUIVO AMORIM

 

Luiz Carlos Amorim



A CRIAÇÃO LITERÁRIA

 

A criação literária é um dom. Podemos aprimorar o nosso fazer literário, estudando para dominar a língua, a correção no uso da palavra, ler muito e escrever sempre e assim podermos crescer e produzir uma literatura de qualidade. É claro que nem sempre conseguiremos construir obras primas, mas o dom que defendemos deverá nos levar a caminhar para isso, embora saibamos que não é fácil chegar lá. Só saberemos da qualidade da nossa obra quando ela chegar até o público e, para isso, há que se ter um livro publicado e com uma boa distribuição. O público leitor é que vai sinalizar se nossa literatura é boa ou não.

O assunto me veio à baila, mais uma vez, quando de um telefonema de uma poetisa amiga de Joinville, Rosângela Borges, que me anunciou a publicação, enfim, do seu primeiro livro. Ela escreve desde menina, conheço o trabalho dela e sei que é bom. Ela sempre teve talento, sua poesia flui natural, com ritmo e essência. Mas não conseguiu publicar um livro, apesar de a criação não ser problema nenhum para ela, por mais de vinte anos. Agora ela me comunica que uma editora mineira está publicando o seu livro, embora esteja arcando com parte do custo dele. Ela acha que vale a pena, no entanto, pois se fizesse uma edição própria, além de arcar com todo o custo, não teria distribuição para o livro e ele se restringiria ao regionalismo, à venda local.

Então o dom da criação não é suficiente para que possamos ser, verdadeiramente, escritores. É preciso que consigamos nos expor para o leitor. Já se disse, apenas repito, que escritor não é aquele que escreve, mas sim aquele que é lido. E para ser lido é preciso fazer nossa obra chegar até os olhos do leitor. E como o livro ainda é o suporte tradicional e insubstituível da criação literária, embora ainda se tente convencer uns e outros de que o meio digital o substituiria, precisamos da nossa obra impressa em papel para submetê-la ao público.

Em palestras por escolas e meios literários, já me perguntaram como é que nascem os textos, como é que aparecem as idéias, como é que se cria a obra literária. Respondia, invariavelmente, que as idéias para escrever um conto, um poema, uma crônica acontecem a qualquer hora, em qualquer lugar, pelos mais diferentes motivos. Alguma coisa que se vê, alguma coisa que a gente lembra, alguma coisa que se houve. Pode ser qualquer coisa: um objeto, uma pessoa, uma situação, um cenário. Já me convenci que devo ter sempre comigo uma caneta e papel, mesmo ao lado da cama, quando estou dormindo, pois temos de anotar as idéias na hora em que elas surgem. Não dá para deixar para depois, pois o que lembrarmos já não será mais a mesma coisa. É claro que a idéia, depois de anotada, precisa ser trabalhada e, às vezes, no final, o tema se desvia completamente.

Há, eu sei, aqueles escritores metódicos, que sentam à frente de um teclado de computador (alguns ainda frente à maquina de escrever, outros frente a um papel em branco com um lápis na mão) num determinado horário, todos os dias e escrevem por determinado tempo. Se vai ser bom ou não o que escreverem é outra história. É um exercício de disciplina, um hábito, um trabalho diário.

Acredito que deva funcionar, para alguns deles, mas não acho que daria certo para mim. Para quem tem uma coluna diária, por exemplo, ou quem escreve um romance, talvez precise se disciplinar dessa maneira. Eu tenho o compromisso de escrever uma crônica semanalmente, e procuro escrever mais que uma, quando a inspiração permite, mas há semanas em que não é tão fácil.

Por falar em inspiração, é outra coisa que se pergunta muito a escritores. De onde vem a inspiração, o que nos serve de inspiração para escrever. Como disse lá em cima, escrever é um dom. Se tivermos facilidade para escrever e se soubermos manejar o instrumento para isso, que é a palavra, tudo pode inspirar uma crônica, um conto, um poema, até um romance. Ah, mas deve haver alguma coisa que inspire mais do que as outras. Acho que pode haver, sim. Eu, particularmente, diria que é a natureza. Até porque só podemos escrever sobre o que conhecemos bem. E, talvez, sobre o que gostamos. O mais importante, mesmo, é o leitor gostar da maneira como escrevemos.


(14 de maio/2005)
CooJornal no 420


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC