| Luiz Carlos Amorim
A produção literária
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Fui contratado, recentemente, para ser jurado de um concurso de estímulo à
produção cultural promovido pela fundação cultural de uma importante cidade
catarinense. Eu e mais outros dois escritores ficamos com a área literária.
Já tinha participado de outros corpos de jurados anteriormente, mas então
tínhamos que ler e avaliar apenas peças de gêneros como poesia, conto ou
crônica. Desta maneira, por maior que fosse o número de inscritos, a
quantidade de textos para ler não chegava a assustar.
Mas desta vez o concurso estava dando como prêmio o custeio da publicação de
obras inteiras, completas. E não havia um gênero distinto. Os autores poderiam
inscrever qualquer gênero, desde que fosse literário ou sobre cultura. Quando vi
os originais dos vinte e cinco livros ao abrir dos envelopes, fiquei assustado.
Um dos originais tinha mais de quinhentas páginas. Havia originais dos gêneros
poesia, conto, romance, literatura infanto-juvenil, pesquisa na área cultural
sobre teatro, sobre literatura e até sobre um ancianato.
Era muito trabalho, mas valeu a pena, pois havia coisas muito boas. Em
contrapartida, é claro, havia coisas muito ruins. Mas foi bom saber que boa
literatura está se produzindo, e melhor ainda, não por aqueles autores já
conhecidos, as figurinhas marcadas. São trabalhos bons, de autores novos. De uma
das obras premiadas não se pode dizer exatamente que era de autor novo, pois
trata-se de edição crítico-genética do diário de um escritor catarinense - Harry
Laus - já falecido, feita por uma leitora atenta, que se constitui num
verdadeiro manual de leitura, de criação literária, de crítica literária, de
teoria literária e de boas indicações de leitura - essa a obra mais volumosa.
Um detalhe que chamou a atenção, foi a pequena incidência de livros de poesia.
Pensamos, eu e outro jurado, que o gênero poesia seria maioria, no que nos
enganamos. Havia cinco livros de poemas - dois de qualidade média e os outros de
baixa qualidade. Um deles, inclusive, tentou a rima, o que tornou mais
desastroso ainda o resultado final - os temas eram fracos, o vocabulário idem. E
com rima pobre, então, ficou péssimo. A maioria era de romances - o que também
surpreendeu - porque a gente imagina os novos escritores se aventurando primeiro
no conto ou na poesia, para depois se lançar a outros gêneros. O que ficou
provado que não é bem assim. Houve, até, alguns poucos que poderíamos
classificar como bons - um dos autores tentou enveredar, talvez, pelo estilo de
Dan Brown - consegui vislumbrar alguma semelhança - e não se saiu de todo mau.
Em compensação, havia outros que era difícil conseguir ler. Um deles, por
exemplo, não separou a prosa dos diálogos e ficou uma coisa muito embolada,
massuda, até de difícil entendimento para o leitor, pois da maneira como estava
tudo misturado, às vezes não se sabia quem estava falando com quem, se era
diálogo ou não. Faltou, em alguns casos, no mínimo, uma boa revisão. E faltou
também leitura, muita leitura, antes da escritura. Houve um único livro de
contos concorrendo e foi premiado, pois era muito bom. Histórias com temas
singulares, beirando o fantástico-maravilhoso, com técnicas bem diversificadas
de contar, muito dinâmicas e objetivas. O gênero infantil ou infanto-juventil
apareceu em duas ou três obras e uma delas foi muito feliz - pasmem - uma fábula
ensinando tudo sobre a reciclagem de lixo para termos um mundo melhor amanhã. A
história é muito boa, com ótimas personagens - envolvendo, além das crianças,
anjos visíveis e invisíveis - com fundo educacional que funciona muito bem no
contexto geral.
Diferente do que nos parecia a tendência, nenhum romance foi premiado, apesar de
ser o gênero da maioria dos originais, assim como também nenhum livro de poesia.
Os premiados foram o gênero conto, o gênero infantil e outro de crítica de um
diário literário.
Então, apesar da pequena amostra (pequena porque foram apenas vinte e cinco
livros), a experiência foi boa, no sentido de que pudemos ver a quantas está a
criação literária, a produção literária fora dos grupos de escritores já
conhecidos ou emergentes. E, considerando-se o que tem sido publicado,
ultimamente, ela vai bem, obrigado (a produção dos novos, é claro)!.
(09 de julho/2005)
CooJornal no 428
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
Prosa,
Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC