09/07/2005
Ano 8 - Número 428

ARQUIVO AMORIM

 

Luiz Carlos Amorim



A produção literária




 

Fui contratado, recentemente, para ser jurado de um concurso de estímulo à produção cultural promovido pela fundação cultural de uma importante cidade catarinense. Eu e mais outros dois escritores ficamos com a área literária.

Já tinha participado de outros corpos de jurados anteriormente, mas então  tínhamos que ler e avaliar apenas peças de gêneros como poesia, conto ou  crônica. Desta maneira, por maior que fosse o número de inscritos, a  quantidade de textos para ler não chegava a assustar.

Mas desta vez o concurso estava dando como prêmio o custeio da publicação de obras inteiras, completas. E não havia um gênero distinto. Os autores poderiam inscrever qualquer gênero, desde que fosse literário ou sobre cultura. Quando vi os originais dos vinte e cinco livros ao abrir dos envelopes, fiquei assustado. Um dos originais tinha mais de quinhentas páginas. Havia originais dos gêneros poesia, conto, romance, literatura infanto-juvenil, pesquisa na área cultural sobre teatro, sobre literatura e até sobre um ancianato.

Era muito trabalho, mas valeu a pena, pois havia coisas muito boas. Em contrapartida, é claro, havia coisas muito ruins. Mas foi bom saber que boa literatura está se produzindo, e melhor ainda, não por aqueles autores já conhecidos, as figurinhas marcadas. São trabalhos bons, de autores novos. De uma das obras premiadas não se pode dizer exatamente que era de autor novo, pois trata-se de edição crítico-genética do diário de um escritor catarinense - Harry Laus - já falecido, feita por uma leitora atenta, que se constitui num verdadeiro manual de leitura, de criação literária, de crítica literária, de teoria literária e de boas indicações de leitura - essa a obra mais volumosa.

Um detalhe que chamou a atenção, foi a pequena incidência de livros de poesia. Pensamos, eu e outro jurado, que o gênero poesia seria maioria, no que nos enganamos. Havia cinco livros de poemas - dois de qualidade média e os outros de baixa qualidade. Um deles, inclusive, tentou a rima, o que tornou mais desastroso ainda o resultado final - os temas eram fracos, o vocabulário idem. E com rima pobre, então, ficou péssimo. A maioria era de romances - o que também surpreendeu - porque a gente imagina os novos escritores se aventurando primeiro no conto ou na poesia, para depois se lançar a outros gêneros. O que ficou provado que não é bem assim. Houve, até, alguns poucos que poderíamos classificar como bons - um dos autores tentou enveredar, talvez, pelo estilo de Dan Brown - consegui vislumbrar alguma semelhança - e não se saiu de todo mau. Em compensação, havia outros que era difícil conseguir ler. Um deles, por exemplo, não separou a prosa dos diálogos e ficou uma coisa muito embolada, massuda, até de difícil entendimento para o leitor, pois da maneira como estava tudo misturado, às vezes não se sabia quem estava falando com quem, se era diálogo ou não. Faltou, em alguns casos, no mínimo, uma boa revisão. E faltou também leitura, muita leitura, antes da escritura. Houve um único livro de contos concorrendo e foi premiado, pois era muito bom. Histórias com temas singulares, beirando o fantástico-maravilhoso, com técnicas bem diversificadas de contar, muito dinâmicas e objetivas. O gênero infantil ou infanto-juventil apareceu em duas ou três obras e uma delas foi muito feliz - pasmem - uma fábula ensinando tudo sobre a reciclagem de lixo para termos um mundo melhor amanhã. A história é muito boa, com ótimas personagens - envolvendo, além das crianças, anjos visíveis e invisíveis - com fundo educacional que funciona muito bem no contexto geral.

Diferente do que nos parecia a tendência, nenhum romance foi premiado, apesar de ser o gênero da maioria dos originais, assim como também nenhum livro de poesia. Os premiados foram o gênero conto, o gênero infantil e outro de crítica de um diário literário.

Então, apesar da pequena amostra (pequena porque foram apenas vinte e cinco  livros), a experiência foi boa, no sentido de que pudemos ver a quantas está a criação literária, a produção literária fora dos grupos de escritores já  conhecidos ou emergentes. E, considerando-se o que tem sido publicado, ultimamente, ela vai bem, obrigado (a produção dos novos, é claro)!.



(09 de julho/2005)
CooJornal no 428


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC