| Luiz Carlos Amorim
AS FEIRAS DO LIVRO E A LITERATURA
INFANTIL
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Como já mencionei em outra crônica, este ano tive mais tempo para participar da
Feira do Livro de Florianópolis e, assim, tive a oportunidade de perceber mais
detalhes, mais nuances que na correria a gente não vê.
Conversando com autores de livros infantis e com pais dos consumidores de
literatura infantil, os leitores em formação, confirmei uma constatação não
muito promissora: nem todos os livros para crianças têm a qualidade de conteúdo
que desejaríamos.
Temos verificado, feira após feira, que a grande vedete desses eventos, cada vez
mais, é a literatura infantil. A cada final de uma feira do livro, seja ela onde
for, o saldo evidencia a superioridade na venda de livros infantis e
infanto-juvenis. E, note-se, só aqui em Santa Catarina acontecem feiras do livro
em Florianópolis, Joinville, Blumenau, Balneário Camboriú, Itajaí, Brusque,
Orleans, Criciúma, Itapema, São Bento do Sul, São José e Joaçaba tem início
neste ano e Jaraguá do Sul, que tem sua primeira edição no início do próximo
ano.
Importante atentar: Florianópolis, além de ter duas feiras anuais, nas próximas
edições elas terão o horário de funcionamento dilatado, pois a carga de dez
horas diárias até aqui tem se revelado insuficiente, uma vez que, neste ano,
foram observadas filas na porta antes da hora de abrir para o público.
Então, comprovadamente, o que mais vende nas feiras é o livro infantil, pelo
menos em quantidade. O que suscitou discussão foi a qualidade dos livros
vendidos. A feira oferece livros para crianças de todas as idades, de todo tipo,
desde os mais simples até os mais sofisticados, desde os mais baratos –
encontramos livros por cinqüenta centavos cada – até os mais caros. Existe até
standes que oferecem exclusivamente livros infantis: grandes, pequenos, muito
pequenos, enormes, edições luxuosas e outras muito simples, algumas até sem
cores no interior, umas com muitas páginas, outras com menos de uma dezena de
páginas.
O que mais existe – nas feiras e nas livrarias, também, só que nas feiras a
concentração é maior – são edições as mais diversas daquelas fábulas
tradicionais, tão nossas conhecidas, como Cinderela, O Patinho Feio, Branca de
Neve, Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, A Bela Adormecida, Rapunzel,
Pinóquio, e tantas outras, publicadas em tiragens enormes. E quanto maior a
tiragem do livro, mais barato ele pode ser vendido.
Além disso, esses contos de fadas, clássicos eternos, importados há muitas
gerações, não têm mais para quem pagar os direitos autorais – veja que os livros
de fábulas citados acima não registram nenhuma autoria -, e assim saem mais
barato ainda para o editor.
Comparando as citadas fábulas com as obras infantis de autores brasileiros, me
invade uma dúvida já levantada em outras ocasiões: será que esses contos, tão
tradicionais e tão clássicos, tem todos algum cunho moral, ético e educativo
para que estejamos, sempre, geração após geração, empurrando goela abaixo de
nossos filhos?
As personagens são fortes, ganharam mais vida com o passar do tempo, mas as
histórias continuam as mesmas. Algumas delas repletas de magia e encantamento,
mas outras com apologia à violência, à inveja, à desonestidade, à deslealdade, à
maldade. Como a avozinha que engorda crianças para devorar, como a madrasta que
manda assassinar a enteada e pede que o executor traga o coração dela, como
prova, como a velhinha encarquilhada que dá uma maçã envenenada a uma pobre
jovem indefesa, como o lobo espertalhão que engana uma simplória avó e a devora,
tentando fazer o mesmo com a netinha, como a outra enteada que é transformada em
escrava, e por aí vai.
Não estou tentando convencer ninguém de que aqueles clássicos são todos ruins,
absolutamente. Há, dentre eles, belas histórias com mensagens positivas, sem
dúvida.
Mas precisamos dar mais valor aos nossos escritores, também. Precisamos deixar
de comprar sempre as mesmas coisas, só porque são mais baratas e porque já estão
impregnadas em nossa cultura. Temos vasta produção nacional dirigida para
crianças, com histórias cheias de encantamento, com boas mensagens, focalizando
nossos costumes, nosso folclore, nossa fauna, nossa história e nossa geografia,
com excelentes ilustrações e com bons preços, também. Temos escritores como o
imortal Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Ziraldo, Ana Maria Machado,
Lygia Bojunga Nunes, Érico Veríssimo, Marina Colasanti, Silvia Orthof e tantos
outros, a nível nacional, além dos catarinenses como Maria de Lurdes R. Krieger,
Else Sant´Anna Brum, Yedda de Castro Goulart, Rosângela Borges, Urda A. Klueger,
Ana Maria Kovács, Eloí Bocheco. São exemplos de ótimos produtores de textos para
crianças, que deveríamos ver com seus tantos títulos em todas as feiras do livro
e em quantidades pelo menos equivalentes aos clássicos de sempre.
Os produtores de literatura infantil e infanto-juvenil da nossa terra são ótimos
contadores de histórias e merecem ser prestigiados. E as nossas crianças merecem
alguma coisa mais moderna e mais criativa.
(24 de setembro/2005)
CooJornal no 443
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
Prosa,
Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC