| Luiz Carlos Amorim
A CIDADE E A POESIA
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A poesia é necessária? Sei que essa pergunta já foi feita muitas vezes, e a
resposta pode ser diferente, dependendo de quem responde. Eu responderia que ela
é, sim, necessária, porque ela faz parte da vida da gente, ela pode ter um papel
importante dentro da comunidade, ela pode ser moradora expressiva e atuante de
uma cidade.
Senão vejamos: por quase vinte anos, “os poetas da praça” do Grupo Literário A
ILHA participaram da vida cultural do norte catarinense, levando a poesia para a
rua, para a praça, para a escola, para o shopping, para o banco, para os bares,
para os palcos, para todos os lugares. Dizer que participaram talvez seja dizer
pouco, pois eles se tornaram tradição e referência poéticas, eles eram parte e,
às vezes, o todo da cultura de uma cidade como Joinville, onde tiveram sua sede
por dezenove anos.
O grupo foi presença marcante na Feira de Arte de Joinville , mês após mês, com
o Varal da Poesia e o Recital de Poemas, além de levar estes mesmos trabalhos,
com regularidade, também às feiras de arte de Jaraguá do Sul e São Bento do Sul,
e com menor freqüência a outras cidades do estado.
O Varal da Poesia especial, com dezenas de poemas sobre dança e dançarinos, foi
durante quase duas décadas, um evento paralelo integrado ao Festival de Dança de
Joinville. Na praça e depois em out-doors, com o Projeto Poesia na Rua, o Grupo
Literário A ILHA espalhava poesia pela cidade. Além do Varal da Poesia e do
Recital, o grupo realizava outros projetos, como Sanfona Poética, que reunia
numa folha dobrada três vezes, meia dúzia de poemas de um mesmo autor ou de
vários, que eram distribuídos aos visitantes da feira de arte gratuitamente.
Também foi popular o projeto Poesia Carimbada, que consistia em carimbos que
estampavam poemas completos e podiam ser impressos em qualquer superfície, fosse
caderno, livro ou papel solto.
Outro evento tradicional do qual o Varal da Poesia já era parte inseparável é a
Festa das Flores da Cidade das Flores. Um varal especial, com cerca de meia
centena de poemas sobre flores e sobre Joinville ocupava um stand na grande
festa, por anos a fio, cantando a beleza e o perfume de todas as flores, sob o
ponto de vista de vários poetas da praça.
A divulgação mais eficiente do trabalho do Grupo Literário A ILHA e a ligação da
palavra poesia com o nome da cidade adveio da visitação do varal da poesia por
visitantes de vários pontos do país, que vinham para o Festival de Dança e para
a Festa das Flores. E a cidade passou a ser também a Cidade da Poesia.
Além disso, com o apoio de comunicadores do rádio, nos anos oitenta e noventa,
os poetas do Grupo A ILHA colocaram a poesia no ar, em programas como Show das
Dez e Fim de Noite. E mais, os poetas da praça levaram a poesia também aos
jornais e à televisão, em colunas assinadas por integrantes do grupo e em
programas no canal local, quando de encontros e lançamentos de livros,
popularizando um gênero até então maldito, pois não vendia livros.
Hoje, infelizmente, os espaços para a poesia inexistem no rádio, na televisão e
até nos jornais. Os poetas da praça, no entanto, continuam batalhando para
manter alguns dos espaços que conquistaram, como a revista do Grupo, o
Suplemento Literário A ILHA, que como o grupo, completou vinte cinco anos de
existência em junho de 2005, como o Varal da Poesia, que evoluiu para o Projeto
Poesia no Shopping, e lançando mão do espaço democrático que é a Internet, com
um portal literário, PROSA, POESIA & CIA, em http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia
e, ainda, a publicação de livros.
As cidades da nossa Santa e Bela Catarina sempre valorizaram a poesia de seus
poetas das praças, por isso aos vinte e cinco anos de atividades do Grupo A ILHA
devem se somar muitos mais ainda. Os projetos existentes vão se adequando às
mudanças que o progresso traz e novos projetos vão sendo colocados em prática
para a divulgação da poesia, pois ela precisa chegar até os leitores sensíveis e
românticos, que graças a Deus existem nas nossas cidades. Eles não são tantos
quanto desejaríamos, mas existem e o nosso trabalho é encontrá-los.
O advento das feiras do livro, com número crescente a cada ano por todo o estado
(e pelo Brasil, também), fez com que um projeto como o Recital de Poemas, por
exemplo, fosse repensado para vestir nova roupagem. Em conversa com editores e
livreiros, durante uma edição da Feira do Livro de Florianópolis, o projeto
ganhou mobilidade e continuidade: os poetas da praça, além de autografar seus
livros nas próximas feiras, aproveitarão o espaço e a concentração de público
interessado em literatura, para declamar poesia pelos corredores. A idéia foi
trabalhada e amadureceu a partir dos contadores de histórias e tocadores de
instrumentos musicais, que vimos no meio do público na feira de rua e na feira
no shopping, oferecendo historias infantis e música aos visitantes.
E assim, estaremos nos aproximando ainda mais dos moradores de nossas cidades,
mostrando-lhes que a poesia existe e que ela não é leitura de meia dúzia de
intelectuais. Sempre defendemos que precisamos colocar a poesia nos ouvidos, nos
olhos e no coração do leitor, seja com o varal, com os out-doors, com
declamação, com as publicações, o que for, para que ele descubra se gosta ou
não. Alguns descobrem que gostam. E é através desses leitores que se deixam
invadir pela poesia, que ela passa a fazer parte da cidade.
TE de setembro, com mais informação literária e cultural e muita poesia.
(01 de outubro/2005)
CooJornal no 444
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
Prosa,
Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC