
22/04/2006
Ano 9 -
Número 473 8
ARQUIVO AMORIM
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Luiz Carlos Amorim
A DOCE CORA CORALINA
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Em doze de abril de 85 o Brasil perdia a sua poetisa mais
sensível, mais autêntica e mais verdadeira: Cora Coralina. Estamos em abril e é
difícil não lembrar de Cora, difícil não falar dela, difícil não reler os seus
poemas. Eu queria escrever uma crônica em homenagem a ela, a grande poetisa do
Brasil, mas não gosto de falar de perdas e acabei não escrevendo. E eis que,
abrindo o Coojornal, como toda semana, me deparo com o texto de Cissa de
Oliveira, minha vizinha lá no portal da nossa amiga Irene do Rio Total: “Um Doce
para Cora Coralina”. Como não lê-lo e não aplaudi-lo? Além de falar de Cora, ela
fala dos doces da doceira de mão cheia que ela era – e eu acabo de voltar da
serra gaúcha, onde mora minha sogra, que faz doces fantásticos de figo, de
pêssego, de marmelo, de morango, no fogão à lenha, não aquele de barro e pedra,
como o de Aninha, mas à lenha, também. E então chego a sentir o gosto do doce de
laranja.
Então cá estou eu, para agradecer à Cissa por lembrar de Cora e para me juntar à
homenagem tão merecida.
São vinte e um anos de ausência da Aninha da poesia forte e despretensiosa,
poesia que transmite a sua mensagem de amor à terra e à natureza, ao ser humano
e à vida. A verdade é que Cora continua viva, cada mais viva nos seus poemas e
na sua prosa. E no sabor dos doces que a Cissa me faz sentir.
A poetisa maior da casa velha da ponte, em Goiás, que teria quase cento e vinte
anos, hoje, publicou seu primeiro livro aos sessenta e sete anos: “Poemas dos
Becos de Goiás e Estórias Mais”. Depois vieram “Meu Livro de Cordel”, “Vintém de
Cobre – Meias Confissões de Aninha”, “Estórias da Casa Velha da Ponte”, “O
Tesouro da Casa Velha da Ponte”, “Os Meninos Verdes”, “A Moeda de Ouro que um
Pato Comeu”. Essa, a obra que transformou Aninha no ícone da poesia brasileira
que ela é hoje.
Em 2001, foram encontrados cerca de quarenta poemas inéditos de Cora, durante o
trabalho de reconstituição de seu acervo. Esse material foi transformado em
livro e foi publicado pela Global, editora que publicou quase todos os títulos
de Cora. O livro é “Vila Boa de Goyaz” e os poemas que o compõe exaltam a cidade
de Goiás, onde a poeta nasceu. Ela fala da Goiás que conheceu no início do
século passado, das ruas que mudaram de nome mas não mudaram de jeito, da
linguagem impressa em cada toque dos diversos sinos existentes na cidade e fala,
também, da casa velha da ponte. Um canto de amor à cidade de Goiás.
Foi o corpo singelo da grande poeta e da grande mulher-menina (ou
menina-mulher?), mas a poesia viva ficou. A poesia que é o coração, a alma de
Aninha, a nossa Cora Coralina eterna, que continuará viva para sempre no versos
e na prosa que ela deixou.
Dos inéditos encontrados de Cora, tomo a liberdade de transcrever aqui “Coração
é terra que ninguém vê”, pois não dá pra falar de Cora sem ler uma criação dela:
“Quis ser um dia, jardineira / de um coração. / Sachei, mondei - nada colhi. /
Nasceram espinhos / e nos espinhos me feri. //
Quis ser um dia, jardineira / de um coração. / Cavei, plantei. / Na terra
ingrata / nada criei. //
Semeador da Parábola... / Lancei a boa semente / a gestos largos... / Aves do
céu levaram. / Espinhos do chão cobriram. / O resto se perdeu / na terra dura /
da ingratidão //
Coração é terra que ninguém vê / - diz o ditado. / Plantei, reguei, nada deu,
não. //
Terra de lagedo, de pedregulho, / - teu coração. //
Bati na porta de um coração. / Bati. Bati. Nada escutei. / Casa vazia. Porta
fechada, / foi que encontrei...”
(22 de abril/2006)
CooJornal no 473
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