26/04/2008
Ano 11 - Número 578

ARQUIVO AMORIM

 

Luiz Carlos Amorim

 

A TRAGÉDIA TRANSFORMADA EM ESPETÁCULO


 


 

Pego carona num carta de um leitor indignado com o caso da menina Isabela, que leio em um jornal às vésperas de indiciarem os pais da criança, oficialmente, como suspeitos.

Como o leitor dizia em sua carta, “a morte da menina é um crime horrendo e abjeto. Mas fico mais preocupado com o circo criado em torno do caso. Mais do que isso, fico apavorado quando vejo na televisão a multidão agredindo os acusados, xingando o casal que ainda não foi condenado pelo crime. A indignação do público poderia ter uma face menos violenta se a mídia não induzisse a esse comportamento.”

Eu concordo com o leitor Nataniel P. de Souza, autor da carta, mas complementaria com um detalhezinho que também me deixa muito indignado: o circo armado em torno do crime hediondo contra a menina não foi de graça nem por acaso. Ou ninguém percebeu que enquanto a mídia só fala nisso, a televisão mostra a todo instante as “investigações” da polícia e “entrevistas” mil sobre a vida e ações de suspeitos, o país continua em polvorosa sem que se dê importância para o que pode estar acontecendo? Como o escândalo dos Cartões “Corporativos”, que vai se encaminhando para acabar em pizza, já que a maioria das duas CPIs instaladas é do governo; o boato do “terceiro mandato” vai evoluindo, só Deus sabe no que vai dar; a data do aumento do salário mínimo está chegando; os preços nos supermercados estão dobrando; as enchentes no norte e nordeste estão destruindo cidades e fazendo milhares de desabrigados, a epidemia de dengue continua matando enquanto o estado não tem dinheiro para pagar médicos e equipar hospitais para atender a população, e assim por diante. E todos nós estamos atentos ao desenrolar da novela (ou seria reality show, já que o assunto está vinte e quatro horas na televisão?) que deve culminar com a condenação dos culpados, que a polícia e a mídia induzem a se pensar que são os pais da menina. Pode até ser, mas não se pode pré-julgar. Há que haver provas. Mas as investigações se arrastam e o assunto vai rendendo mais capítulos.

Enquanto as coisas fervem por detrás dos panos, a tragédia alheia transformada em espetáculo embaça a visão do cidadão, que vai ser a vítima final. Sempre foi assim no Brasil. Quando alguma coisa está pegando, quando alguma coisa está para estourar, vem uma polêmica ou acontecimento bombástico que desvia a atenção e quando nos damos conta, já temos uma nova lei aprovada, um novo imposto para pagar, algum político corrupto (coisa tão rara neste país) se safou de boa e por aí afora.



(26 de abril/2008)
CooJornal no 578