15/02/2013
Ano 16 - Número 827


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



O que há em comum entre vinho, papa e Buñuel?

Ana Luiza - CooJornal

A princípio, nada, a não ser minha íntima e peculiar celebração da festa da carne.

Como sempre disse meu mestre, há um ditado — que talvez, nada tenha de chinês — para essa ocasião: Cada qual com seu carnaval.

Samba, axé, funk... Não! Para tudo. Rola um Beethoven aí?

Depois de todo o exagero, da comilança, da bebedeira e dos namoros temporários, pergunta-se (ou não): Afinal, o que é esse tal de carnaval?

É uma festa de cunho religioso, precede a quaresma, que, por sua vez, é tempo de jejuar. O carnaval é o exagero antes da escassez característica do jejum e das diferentes penitências feitas em celebração aos quarenta dias que Jesus passou no deserto, história esta contada nos evangelhos de Mateus, de Marcos e de Lucas.

No tempo em que não havia geladeira, ficar sem comer carne por quarenta dias garantiria o desperdício do alimento, por isso, antes do jejum, nada melhor que comer e beber tudo, zerar o estoque. Decretava-se, então, a festa da comilança. E assim, acredita-se, começou o carnaval.

Eu, como pessoa conservadora que sou, sigo as tradições. Resolvi exagerar, enfiar o pé na jaca, deitar os cabelos.

Era sábado à tarde quando cheguei em casa com uma sacola cheia de DVDs e uma garrafa de vinho. Tranquei a porta e minha folia começou. Enquanto a burguesia de Luis Buñuel não conseguia chegar aos finalmentes com um jantar, concluí várias refeições, sempre preparadas por mim — exceto por uma pizza. Também me diverti com um serial killer que, por obra do acaso, jamais conseguiu ser assassino. Depois, em uma onda mais tranquila, no domingo de carnaval, encantei-me pela Bela da Tarde, uma moça que, cansada da monotonia da vida burguesa, resolveu trabalhar à tarde no bordel comandado por Madame Anaïs. Entre bebidas, sonecas e comida, por fim, mas sem chegar a meu fim, assisti ao jogo de xadrez entre um cavaleiro e a morte e o debate de Ingmar Bergman acerca da decadência da igreja. Encerrei minha festa com uma viagem, de costa à costa pelas estradas norte-americanas, na companhia de Sal e Dean, e refleti sobre a relação entre pessoas e sobre a vida.*

Com essas histórias de tentativas, enfrentamentos e viagens concluí que tudo se conecta. Até mesmo o papa entrou no meu carnaval com sua humildade em admitir que não está apto a continuar no exercício de sua função.

E como no Brasil tudo começa depois do carnaval, com meu vinho espanhol, ofereci um brinde ao início da quaresma, ao primeiro dia do ano de 2013, a um começo-já-começado sem excessos, com a dose certa de histórias, com a força necessária para seguir, e com muita folia, porque a vida sem diversão, nem mesmo os burgueses de Buñuel aguentam.

Ano novo, vida nova, metas a cumprir. Então, como disse uma amiga: “Agora, ou vai, ou racha!”

E feliz ano novo brasileiro!

* Os filmes aos quais me refiro são: O discreto charme da burguesia; Ensaio de um crime; A Bela da Tarde; O sétimo selo e Na estrada.



(15 de fevereiro/2013)
CooJornal nº 827



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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