22/02/2013
Ano 16 - Número 828


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



A primeira vez

Ana Luiza - CooJornal

Às vezes tenho vontade de ser mais velha, escolher a hora de fazer as coisas. Aliás, fazer só o que quero, porque a gente tem que ser assim, ou assado, fazer isso ou aquilo e sempre o que mandam os adultos. Cansei de arrumar meu quarto quando estou a fim é de arrumar minhas unhas. Também não é legal ter que desligar o computador justo na hora que o gatinho entra no Face.

Mas pelo menos, outro dia, deu tempo de ele me chamar para o cinema.
Nem acreditei quando minha mãe deixou.
Falei, tipo "uhuuu, fui convidada pra ir no cinema". Ela: "ao cinema". Eu: "tá, mas..." Ela: "quem" Eu: "É... Tipo..."
Achei que fosse pegar no meu pé. Você sabe, né? Quem é ele? Quantos anos ele tem? Com quem vocês vão? Blá, blá, blá. Mas até que foi tranquilo. Assim... Claro, ela perguntou nome e tal, daí eu mostrei o perfil dele no Face.
Ficou tudo certo. Mas eu acabei chamando minha amiga também, porque fiquei meio tensa de ir sozinha com ele, sei lá...
Só sei que quase não dormi à noite. Nem acreditei quando acordei e olhei para o relógio e eram sete horas. Nunca acordo cedo assim!
E a dor de barriga?
Ai!
Passei a manhã contando os minutos que faltavam pra sair, daí minha mãe me chamou, mas era pra almoçar. Foi tenso. Pensei logo no pior: que a gente ia demorar demais pra voltar e que não ia dar tempo.
Ai... a dor de barriga de novo.
E aí, pra piorar, quando eu estava indo pro cinema ele ligou, tipo, meio desanimado, porque a mãe dele ficou na dúvida.
Eu: "Como assim?" Ele: "Pois é." Eu: "Insiste com ela." Ele: "Já insisti."
Mas aí recebi uma mensagem, tipo: "vai rolar, a gente se vê". Meu coração voltou a bater normal. Quer dizer, nem tanto, né? Porque desde a hora que ele me convidou parece que tudo em mim ficou acelerado.
Minha mãe me deixou na porta do cinema.
Sabe quando a gente sente um frio que sobe e parece que a boca fica assim meio seca, sei lá! O coração bate mais rápido e tal. Pois é...
E lá estava eu com minhas amigas e minha dor de barriga.
Ele chegou.
Entramos.
O filme tava bom, mas fiquei de olho foi na mão dele. Ela vinha devagarinho na minha direção e eu fiquei torcendo pra ela chegar logo, pra ele pegar na minha mão!
A minha já estava suada.
Nem acreditei quando ele chegou mais perto.
Frio no estômago!
Coração acelerado!
Nada pode dar errado agora!
Foi quando ouvi aquela risada. Ai meu Deus! É ela. É minha mãe.
Olhei pro lado.
Ele chegava cada vez mais perto.
A risada não parava.
Olhei pra trás.
Ele estava praticamente encostado em mim.
A risada ficou alta.
Ele encostou a mão na minha.
Olhei pro lado de novo.
A risada, meu Deus!
Ele me beijou!
Tô nem aí pra risada!
Ah! Adorei!
Quero mais um.
Não vi o final do filme. Nem a dona da risada.
Só sei que jamais vou esquecer a primeira vez que meu estômago gelou, minhas mãos tremeram e meu coração disparou, e tudo por causa de um beijo.
Nem precisei ficar tão mais velha. Acho que é bom ser adolescente.



(22 de fevereiro/2013)
CooJornal nº 828



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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