08/03/2013
Ano 16 - Número 830


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



Mulher perfeita?

Ana Luiza - CooJornal

Há algum tempo vi desses links que as pessoas compartilham indiscriminadamente, na internet e o danado me marcou. Era uma sequência de fotografias de rostos de atrizes hollywoodianas intitulada “Mulheres no cinema”. Fiquei intrigada: de todas elas que algum dia estiveram no cinema, de todas as beldades e das inúmeras sensualidades, somente 77 conseguiram chegar ao vídeo. Claro, não havia tempo para mostrar tantas indescritíveis belezas. Mas impressionante mesmo foi observar o padrão: de todas as 77, somente 3 não eram “brancas” — duas eram de descendência africana e uma, latino-americana. As sobrancelhas finas sem um fio fora do lugar e os cabelos muito bem arrumados acompanhavam maquiagens impecáveis; as joias, em todas, era acessório para belos vestidos, decotes e finas fazendas. Abaixo do vídeo vinha um comentário de algum internauta: “Perfeita seleção de rostos”.

Mas o que, afinal, faz uma mulher perfeita?

“A maneira como as pessoas avaliam beleza física não é naturalmente determinada, mas social e culturalmente ensinada, portanto, está no olhar do observador” (Zones 1997). Uma pessoa não nasce bonita, o contexto cultural determinará se ela é bela ou feia. Pense em um lugar no mundo. Agora concentre-se em um aspecto em particular que diz respeito ao corpo da mulher, digamos: o corte de cabelo. Em diferentes lugares, em diferentes épocas, o padrão muda. No Brasil, por exemplo, as mulheres deixam as madeixas longas até os quarenta anos, então cortam, porque cabelos longos não combinam com as feições de uma mulher madura. Agora vá entender o que faz com que os cabelos parem de combinar com a mulher quando ela completa quarenta anos. E os cabelos grisalhos? Na cultura brasileira, espera-se que mulheres tornem-se escravas de salões de beleza para se livrarem dos fios brancos — mas isso só até aparecer uma personagem de novela a exibir alvos pelos.

Conforme Jane Zones argumenta, os critérios estão aí e são exigentes. A beleza feminina está sempre em foco e as mulheres são pressionadas a mudar a aparência e a se adequar ao padrão.

Daí alguém pode se perguntar porquê mulheres procuram pela aparência perfeita. Na verdade, não são apenas elas, os homens também entraram nessa busca. Principalmente depois de certa pesquisa ter concluído que pessoas fisicamente atraentes têm mais chances que as não atraentes. Até os bebês “bonitinhos” são mais bem sucedidos — eles ganham mais atenção que os não bonitinhos — e da mesma forma, alunos mais “lindinhos” são privilegiados. O fato é, pessoas que pensam ser mais atraentes — talvez até sejam — tornam-se mais “socialmente competentes”, conforme pesquisa citada por Zones. Outro ponto abordado pela pesquisa é que mulheres tornam-se alvo de tal pressão mais frequentemente que homens.

Quem é e quem não é fisicamente atraente? Depende da cultura popular. Os conceitos de beleza mudam; como já disse, eles variam de acordo com o tempo e o espaço. A única coisa que não varia é a necessidade de homogeneização. Isto é, quando algo se torna padrão, tudo o mais deve se parecer com aquilo. Aí está o problema, se alguém não está de acordo com os critérios de beleza, deve se corrigir conforme “manda o figurino”.

A sociedade cria padrões: em etnias, nos gêneros, no que é habilidade ou falta de, nas classes sociais, em idades e assim por diante. Os padrões de gênero, por exemplo, são aterrorizantes. De acordo com Betsy Lucal, em seu artigo “What It Means to Be Gendered Me” (O que significa ser um “eu” com gênero definido), vivemos a regra do “dois e somente dois”. Ou seja, nossa sociedade somente reconhece dois gêneros, cada um com traços bastante específicos. Portanto, nós fazemos o gênero.

Lucal, por exemplo, descreve sua experiência como mulher que não apresenta traços femininos conforme o esperado. Porque ela veste roupas largas, não pinta as unhas, tem cabelos curtos e outras características que, em geral, não são consideradas femininas, frequentemente indicam a ela o banheiro errado, muitas vezes a chamam de senhor, ou é considerada membro de algum grupo pronto para alguma fraude com cartão de crédito. Como ela mesma diz, não importa a maneira como ela se percebe, “é o gênero que parece ser o dela (...) que é mais relevante para a identidade social e para as interações com os outros” (Lucal, 1999). Quem quer que ela seja, ela é aos olhos do observador.

Para mim, enquanto isso parece ser comum, é também injusto. Eu já me vi em situações em que fui questionada quanto a ser mulher. Depois de uma sessão de cinema, estava no banheiro, lavando as mãos, uma mulher abriu a porta, deu alguns passos para entrar, parou, franziu a testa, buscou seu mais indignado tom para deixar sair a pergunta: “Isso aqui é banheiro masculino ou feminino?”. Respondi o que era. Ela entrou desconfiada, eu saí. Sem falar nas inúmeras vezes em que fui parada na rua com um “amigo!”, ou “camarada!” seguidos de pedido de informação. Mas não me importo. Carrego meus cabelos bem curtos, porque... não preciso dizer porquê. Simplesmente sou uma mulher que tem cabelos curtos, usa calça jeans e camisa de malha. Não calço sapatos de salto alto e nem uso maquiagem. E então, sou ou não mulher?

Se somos do gênero correto, ou não, importa pouco, o xis da questão é: estar confortável dentro de seu corpo, dentro de suas roupas, com o estilo que queira significa ser perfeita. Audrey Hepburn era uma mulher perfeita (talvez?). Mas Lucal, eu, e todas as outras mulheres, “femininas” ou não, somos perfeitas do nosso jeito, porque nós seguimos nosso próprio gênero. Ou talvez eu possa dizer que nós “fazemos o gênero” de forma diferente. E melhor que nos corrigir para que estejamos de acordo com as expectativas sociais, é olhar para nós mesmas com orgulho de quem somos e orgulho de nossa aparência física. Somos o nosso próprio observador, o mais importante de todos.

E a propósito, nada, ninguém é perfeito. Mas isso é outra história.

(Este texto é dedicado a tod@s amig@s que um dia sentiram-se oprimidos pelos padrões de gênero criados pela sociedade. Estamos junt@s!)

Referências:
Lucal, Betsy. What It Means to Be Gendered Me: Life on the boundaries of a Dichotomous Gender System. Gender & Society, 13 (1999): 781-97.
Zones, Jane Sprague. Beauty Myths and Realities and Their Impact on Women's Health. Women's Health: Complexities and Differences. Ed. Cheryl B. Ruzek, et alli. Columbus: Ohio State UP, 1997.



(08 de março/2013)
CooJornal nº 830



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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