22/03/2013
Ano 16 - Número 832


 

ARQUIVO
ANA LUIZA LIBÂNIO




 

Seja um
"Amigo da Cultura"


 

  Follow RevistaRIOTOTAL on Twitter

Ana Luiza Libânio



No meio do caminho... Caiu uma árvore

Ana Luiza - CooJornal

Era uma agradável, fresca, ainda que ensolarada, manhã, a primeira depois de uma sequência de causticantes dias. Como de costume, levei minha filha para a escola, atendi uma aluna, executei algum trabalho de revisão, ou tradução e segui para mais um encontro didático. O cronograma, pensado e repensado, não permitia imprevistos; os horários foram calculados para que o vai e vem pudesse atender a todas as necessidades.

Mas inconvenientes ocorrem.

Nessa cena bucólica — pássaros cantavam, a rádio divulgava notícias boas e os transeuntes trocavam sorrisos amigáveis — eu dirigia numa das principais avenidas de Belo Horizonte, também uma das mais arborizadas, quando os sons da natureza (urbana) foram interrompidos por uma freada brusca seguida do ruído de uma árvore a desmoronar. Isto bem a minha frente.

Quase ouvi alguém gritar “ma-deeei-ra!” antes do estouro dos cabos de energia do outro lado da pista, seguido do estrondo de Kombi atingida por galhos caídos.

Depois disso, nada pude escutar além de meus pensamentos rápidos e desesperados em uníssono dentro de minha caixa craniana (ler acompanhada(o) de dezessete pessoas que possam, ao mesmo tempo, expressar as frases a seguir com tom de desespero):

E agora? Como vou buscar Hannah na escola?

Ligo para meus pais.

Putz! Fechou a pista.

Não tem como sair daqui.

De onde surgiu tanta gente.

Pessoas brotam do solo.

Olha a Kombi, será que tinha alguém lá dentro... Meu Deus!

Será que tinha alguém na calçada...

Que sorte que o sujeito conseguiu parar o carro.

Que sorte que eu estava um pouco para trás.

Ele vai passar ali em baixo?

Será que eu consigo passar?

Será que desço para ajudar a tirar aqueles galhos.

Acho que minhas pernas estão tremendo.

E se passarmos e o tronco continuar seu caminho até o chão.

Talvez não caia.

Talvez.

Depois de dois segundos, busquei o ar.

Do canteiro central, até a calçada, a centenária árvore estendeu um de seus braços. Parou o trânsito. Fez questão de deixar um espaço, um sovaco por onde poderíamos passar, ainda que apreensivos.

Mirei com a frente do carro, abri os vidros, olhei para o lado — uma das pessoas que brotaram do solo se manifestou: “as pessoas vão se arriscar passando ali” — respirei fundo, acelerei e segui o caminho a lançar olhares suspeitos para as outras árvores, na tentativa de ler se mais alguma pretendia pausar o tempo dos apressados motoristas. Quando percebi, já estava estacionada na escola de minha filha e procurava entender porque aquilo havia acontecido.

Não pude evitar outra onda de pensamentos (convidar agora doze pessoas para ler, em coro, o que se segue):

Obstáculos chamam atenção para a correria do dia a dia.

Essa prefeitura precisa dar manutenção nas árvores.

É bom morar numa cidade verde, mas é também perigoso.

Viver é perigoso.

Mas não se pode ter medo.

No meio do caminho tinha mais que uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento.

Minhas retinas também estão fatigadas.

Nunca me esquecerei.

No meio do caminho caiu uma árvore.

Isso é um sinal?

Stop, Ana!

Alguém me ligou.

“Alô? Você não sabe o que acabou de me acontecer.”

Conclui que, muitas vezes, uma árvore é apenas uma árvore e que elas, outras tantas vezes, caem.



(22 de março/2013)
CooJornal nº 832



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
Conheça um pouco mais de Ana Luiza Libânio

Direitos Reservados