29/03/2013
Ano 16 - Número 833


 

ARQUIVO
ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



Luz, Câmera, Ação!

Ana Luiza - CooJornal

Mãe: Estou super curiosa!

Filha: Eu também! Deve ser forte...

Mãe: Sim, é a história de uma escritora que é presa e torturada, durante a ditadura.

Filha: Dá pra imaginar como era. Mas é difícil acreditar.

Mãe: Acredite. Faziam muita maldade.

Filha: Torturar? Como alguém pode ter coragem de fazer essas coisas?

Mãe: Não sei. Quem esteve nas prisões da ditadura viveu um verdadeiro terror.

Filha: Ainda bem que muitos sobreviveram.

Mãe: Sim. Mas gente demais morreu covardemente. Olha aí! É nossa vez.

As duas: Oi!

Nicanora: Olá!

Mãe: Eu sou Ana.

Filha: E eu Hannah.

Nicanora: Com dois “Ns”?

Hannah: Sim!

Nicanora: Aqui está. Espero que gostem.

As duas: Obrigada!

Mãe: A  capa ficou linda.

Filha: Verdade. Quem é ela, mãe?

Mãe: Nicanora significa “vencedora” e Martins, “guerreira”. Essa personagem representa as mulheres que sofreram nas mãos dos carrascos da ditadura. Foram torturas inimagináveis. As pessoas eram tratadas como objetos descartáveis. Talvez nem isso, eram como coisas estragadas que deveriam ser jogadas fora, uma fruta podre, por exemplo. Ou um câncer que precisava ser extirpado. A ditadura acabou com a liberdade de expressão, com a identidade e o que é pior, com a vida das pessoas. Vivia-se um contexto de medo.

Filha: E as mulheres sofriam mais?

Mãe: Não sei se podemos dizer mais; torturas diferentes, sim. Imagine que li um relato de uma mulher que foi obrigada a assistir a tortura de outra que estava grávida. Tanto a gestante quanto o bebê morreram como “exemplo” para a outra, e esta nunca esqueceu o que assistiu.

Filha: Nem quero saber o que fizeram.

Mãe: Olhe, filha, foram coisas horríveis. Só o fato de proibir o outro de ser, de acreditar e de expressar o que quiser, é inaceitável, porque é negar diálogo. Torturar, matar é ainda pior. Essa personagem eu criei para representar todas as escritoras que viveram sob o terror das prisões na América Latina. A verdade é que foram mulheres e homens de diferentes religiões, profissões, etnias. Nicanora é, portanto, uma personagem cuja alma pertence a tantos indivíduos que morreram e aos tantos que sobreviveram ao terror. Mas a carga dela é ainda bem maior: Essa mulher guerreira e vencedora é a representação de todas as nações que viveram esse pânico da invasão, da perda de identidade, da morte bruta e precoce.

Filha: Estou super curiosa para ver o filme. Posso ler o roteiro?

Mãe: Claro! Depois que o filme ficar pronto, depois do lançamento. Primeiro vamos assistir, depois você lê.

Hannah: Por quê?

Mãe: Só uma sugestão. O processo da criação de um filme é muito rico. Parece um pouco com o nosso próprio desenvolvimento como seres humanos. Veja por este filme: Certa noite, envolvida com histórias, relatos, pesquisas, deparei-me com essa criatura que se destacou na multidão que minha mente visualizava. Ela parecia andar em minha direção para trazer uma história que precisava ser contada. A cada passo que dava, nas estradas digitadas por mim, eu sentia que ela estava mais e mais aqui dentro. Aquela figura feminina cresceu, aos poucos, em mim. Até que ela nasceu. Nick foi o apelido que ganhou desde pequena. Ela encorpou, ganhou voz, força e se tornou uma mulher. Sua identidade se formou também aos poucos, na relação com as outras pessoas com quem ela interagia.

Assim, o roteiro inteiro se criou. Ele se contou para mim. Eu digitei as cenas. E como uma mãe orgulhosa, mostrei meu filho a uma pessoa, a outra e depois mais outra. Nessa interação, também, a história cresceu e tomou o formato que hoje vemos aqui.

Filha: Todas essas luzes, câmeras, figurantes... E nós aqui!

Mãe: Estamos aqui entre atores, diretores, produção, toda a equipe que está dedicada a transformar essa criança que nasceu de mim em um adulto de sucesso. Essas personagens que por alguns anos somente eu vi, agora serão vistas por muitas pessoas, em diferentes cidades, quem sabe até países. E por isso sugiro ver o filme primeiro, porque ele é muito mais que só o roteiro.

Filha: E legal que você vai aparecer na história que você mesma escreveu.

Mãe: Legal mesmo é você, minha filha, estar comigo nesse momento. O mais impressionante é que isso tudo aqui, todas essas luzes, maquiagens e vidas estarão registradas enquanto os registros durem. Que responsabilidade a nossa!

Filha: Foi você que criou!

Mãe: Não. Essa história simplesmente passou por mim. Ela já existia, eu apenas a verbalizei e agora todos nós, aqui, damos às minhas palavras corpo, sangue e alma.

Corta!

Para todos os indivíduos que respiraram monóxido de carbono, que mergulharam involuntariamente no oceano, que tiveram corpo e alma dilacerados pelo NÃO, dedico esta crônica, escrita depois da filmagem da última cena do curta-metragem “Parênteses”.



(29 de março/2013)
CooJornal nº 833



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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