21/06/2013
Ano 16 - Número 845


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



O dia em que quase conheci Selton Mello

Ana Luiza - CooJornal

Selton Figueiredo Melo nasceu em Minas Gerais, logo ali, em Passos. Ele está em “O Auto da Compadecida”, “Lisbela e o Prisioneiro”, “O Cheiro do Ralo” (um de meus filmes prediletos), “O Palhaço” (outro filme predileto) e muito mais. Ele já ganhou prêmios, dirigiu obras-primas e apareceu muito na televisão.

Mas o mais impressionante: ele quase apareceu na casa de meus pais.

O ano era 2003, o mês era aquele quando a música começa a se repetir em nossos ouvidos e acabamos convencidos de que doar uma graninha fará bem a alguém.

Lembro como se fosse a campanha do ano passado. Eu estava tranquila em meu apartamento quando o telefone tocou. Jamais poderia esperar uma ligação daquelas. Imagine! Nunca fui atriz, na TV somente apareci por acaso — papagaio de pirata em reportagem de rua.

Mas o telefone tocou.

Era minha mãe.

Alguém havia me procurado em sua casa. Era daquele canal de TV.

— Querem você na campanha. Vão filmar aqui.

 

Naquele ensolarado dia de um mês de esperança, cheguei a casa de meus pais e na porta descansava um ônibus parecido com os de Hollywood. De dentro, saiu uma mulher e uma criança.

— Este é Roberval. Você ajudou a família dele — ela sorria para mim enquanto passava a mão nos cabelos do garoto.

Ah é? Ajudei?

Era a tal campanha. Descobri que me ligaram porque em algum ano entrei em contato com Renato Aragão, ouvi a gravação até o final e, pronto, havia doado algum dinheiro.

As orientações foram claras:

1.  Eles tocam a campainha;

2.  Eu abro a porta;

3.  Demonstro que fiquei feliz em ver o garoto que ajudei.

Fácil. Ninguém precisa ser atriz para fazer esse papel.

Fechamos a porta, minha barriga gelou. Tive medo de não conseguir sorrir. Tive ansiedade. Tive vergonha. Tive sei lá o que temos quando pensamos que o papel que nos é proposto não é verdadeiramente nosso.

Transpirei. Ri. Respirei fundo.

A campainha tocou.

Abri a porta.

— É... Oi? — Quem é essa mulher? Ninguém me avisou que haveria uma mulher com o garoto. E agora? Será que preciso dizer o nome dela. Mas quem é ela? — É...

— Corta!

Recordamos todos os passos. Disseram-me que foi tudo joia, mas que eu precisaria demonstrar mais surpresa e me deram a mais preciosa informação do momento: o nome daquela famosa atriz.

— Você não a conhecia?

Ora, ora! Claro. Imagine!

Não. Eu não a conhecia, mas não quis admitir. Eu nem mesmo me sentia digna daquele papel, imagine se contaria a eles que não sabia quem era aquela mulher?

— Chamamos Selton Mello para fazer a campanha, mas ele estava com a agenda cheia.

O quê? Como assim? Selton Mello?!

Fosse ele, ficaria naturalmente surpresa e não teria perdido tanto tempo em tantos takes. Ou talvez teria caído para trás.

Fingi. Fiz cara de paisagem, como se não me importasse. Mas ela percebeu, não passei no teste, não virei atriz e ela saiu com raiva de mim.

Agora sou escritora. Invento histórias. Quem sabe um dia uma delas será protagonizada por ele?

Se você, Selton Mello, estiver lendo este texto, não hesite em me pagar aquela (quase) visita! Prometo fazer um delicioso café, ou servir-lhe meu melhor uísque e compartilhar um charuto, se assim lhe aprouver. Ah, claro, isso depois de um surpreso “Ó, Selton Mello!”.

A propósito, dedico esta crônica a Selton Mello.



(21 de junho/2013)
CooJornal nº 845



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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