05/07/2013
Ano 16 - Número 847


 

ARQUIVO
ANA LUIZA LIBÂNIO




 

Seja um
"Amigo da Cultura"


 

  Follow RevistaRIOTOTAL on Twitter

Ana Luiza Libânio



Um rito de passagem
(um agradecimento)

Ana Luiza - CooJornal

Enquanto meus quarenta anos estão logo ali, ao virar da esquina, reflito: O tempo é mesmo implacável. Ele não deixa de passar, leve, suave, nada de correria, mas precisamos nos lembrar de olhar para ele, para o lado de fora de nós mesmos. Para o outro: o mundo.

Enquanto inicio o encerramento de mais uma década, concluo que acordar assustada a dizer de como o tempo voou, é culpa minha por não ter proporcionado a ele o necessário espaço para dar o ar de sua graça.

Enquanto ando na direção do cruzamento que me levará ao topo do morro, no bairro dos Enta, busco viver cada vez mais o que me é caro.

Enquanto preparo-me para o último ano de minha vida balzaquiana, preparo uma lista, otimista, de tudo o que vem por aí: Menos promessas, mais objetivos. Ações.

Enquanto vejo, agora sem ajuda dos binóculos, a “idade madura” chegar, abro espaço para um novo eu, livro-me dos medos e angústias e procuro variar os erros.
Enquanto chego ao final do dilúvio, ainda submersa na vida, pronta para emergir, aprecio o caminho até a superfície: Agora diferente, renovada.

Quando os “enta” chegarem, já não serei eu, mas uma outra forma do meu eu.

Enquanto aprecio a chegada da quarta década, deixo de acreditar que o mundo, o macrocosmo, é responsável pelo que sou, para crer na influência de meu ser, o microcosmo, no contexto maior da vida. Acredito, piamente, no vice-versa.

Enquanto multiplico quatro por dez e vejo a plenitude chegar, entendo que até aqui não fiz tudo de que sou capaz. Ainda há uma metade, ou mais, a viver.

Impossível prever o que virá, somente sei, até o momento, o que se passou nos trinta e nove anos que se iniciaram no 183º dia do ano de 1974, mesmo dia em que, mais uma vez, foi comemorada a independência da Bahia, o dia dos bombeiros e o dia do hospital.

No dia 2 de julho também nasceram Zélia Gattai, Herman Hess e Wisława Szymborska, estes dois, ganhadores do Nobel de Literatura. Ernest Hemingway, outro ganhador do Nobel de Literatura, deixou o mundo treze anos antes de eu chegar e Vladimir Nabokov, três anos depois. Dois anos após meu nascimento sul e norte uniram-se para formar a República Socialista do Vietnã.

Canonizado pela Igreja Ortodoxa Romena, Estêvão III da Moldávia, famoso por resistir ao Império Otomano e por perder apenas duas entre quarenta e oito batalhas travadas, é o santo do dia do meio do ano.

No dia 2 de julho, passados 182 dias e com ainda 182 dias até o fim de 1971, casaram-se meus pais. Não fossem eles, a história, e a caminhada que tracei, este texto não existiria.

Aliás, muito do que é, seria diferente, assim como poderia ser diverso tudo o que será, se o que houve nos dias 2 de julho jamais tivessem existido.



(05 de julho/2013)
CooJornal nº 847



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
Conheça um pouco mais de Ana Luiza Libânio

Direitos Reservados