19/07/2013
Ano 16 - Número 849


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



Quem foi que disse que meu sexo determina
meu gosto?

Ana Luiza - CooJornal

Sarita morre de raiva sempre que lhe oferecem produto “desenvolvido para mulheres”. E se vendedores soubessem, jamais perderiam tempo com esse tipo de oferta improdutiva.

Numa agradável noite de algum desses meses passados ela foi convidada para jantar com um primo. Foram a um famoso restaurante, na capital mineira. Um bom vinho, uma boa prosa e um charuto abriram a noite.

Mas nada aconteceu sem antes fazerem uma visita à tabacaria.

As quatro paredes do ambiente climatizado eram cobertas de diferentes caixas de charutos. Todos os tipos possíveis. Ali havia tabaco de várias cores, sabores e em formatos diferentes. Mesmo sem jamais ter ouvido falar de muitos daqueles, Sarita coçava o queixo e fazia seu melhor ar de entendedora. Ela decidiu escolher sozinha o que fumar.

Obviamente, o vendedor pescou a falsidade do olhar da moça.

— Posso ajudar?

Ela continuou a fingir. Apontava um, depois outro. Pensava — na verdade, tentava decifrar o mistérios dos tamanhos.

— Este aqui! — ele estendeu a mão que segurava uma lata de finas cigarrilhas. — As mulheres gostam destas.

Vixi!

Sarita apenas expressou algo como “hum”. Ele insistiu em dizer que aquele era feito especialmente para ELAS.

Vixi! Não!

Completou ainda com a descrição do tabaco: suave com toques femininos...

Ah, não! Meu Deus.

Ainda com a mão no queixo, ela olhou mais um pouco ao redor e apontou o charuto que lhe pareceu ter potencial. Não muito longo, nem muito curto, era o seu tamanho. Sorriu.

— Mas este...

Insistiu.

Sarita além de levar para a mesa um charuto que o homem, na hora do acerto de contas, denominou charuto para macho, despejou sua indignação e questionou a autoridade de pessoas que determinam o gosto do usuário conforme seu sexo. Ou, o produto certo para cada sexo.

Foi o caso de uma cachaça que experimentou alguns anos antes do evento tabagista.

Houve uma ocasião em que ela organizou um congresso nacional com diferentes edições, em seis capitais brasileiras. Uma dessas aconteceu em Campo Grande, cidade onde um mercado municipal guarda deliciosas iguarias e saborosas cachaças locais. No grupo de palestrantes havia quatro estrangeiros que, obviamente, queriam experimentar tudo o que, para eles, era exótico. A marvada incluída.

Na banca de um senhor estavam expostas algumas garrafas. Os senhores palestrantes sem demora foram servidos com o líquido e um comentário:

— Essa é da boa; vão gostar. Cachaça de macho.

Sarita, chegada à degustação de água-que-passarinho-não-bebe, esperou sua vez. Ficou por último e ainda precisou lembrar que estava presente.

— Qual delas você quer?

Não entendeu muito bem a pergunta. E provavelmente estampou no rosto uma grande interrogação.

— Tenho umas aqui ótimas para vocês.

A interrogação ficou ali, estática. O homem tentou explicar melhor:

— Essas aqui são mais fraquinhas, são docinhas. As mulheres gostam.

“Ah senhor cachaceiro! Dá logo a de macho aí porque esse negócio de cachaça docINHA não é comigo. E de mais a mais, quem foi que disse que meu sexo determina meu gosto?”

Outro convite para Sarita bater em retirada é usar o diminutivo em vão.

Mas antes de seu protesto, ainda tomou uma branquinha!


(19 de julho/2013)
CooJornal nº 849



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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