26/07/2013
Ano 16 - Número 850


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



“Ah! Tempos bons!”

Ana Luiza - CooJornal

Alberto mal pôde conter as lágrimas diante daquela cena. Era forte e provocava inúmeros sentimentos com os quais estava difícil lidar. Ele desabou.

As imagens vinham da TV, de um “remake” hollywoodiano, uma visita ao passado — ou ainda, um provocador da nostalgia que, dia após dia, procuramos evitar.

“No meu tempo...”
“Ah! Tempos bons!”
“Que saudade daqueles tempos!”

Ah, o tempo! Alberto precisava parar com aquilo, e sabia disso. Mas era impossível não lembrar das festas de seus anos de escola. E o filme Footloose pegou nosso amigo de surpresa, na mesa do café-da-manhã, com sua esposa, que não era a garota daquele inesquecível baile.

A turma estava em polvorosa. Era fim de ano, fim da sétima série e começo da melhor época da vida, aquela em que já nos sentimos adultos, sociais e donos de nosso nariz. Pediram licença para um dos professores e logo determinaram os papéis: meninos, bebidas; meninas, salgadinhos.

Alberto notava a agitação delas e se divertia com aquilo. “Vou fazer trança”; “prefiro rabo de cavalo”; “o meu vou deixar solto mesmo”. Falavam de bijuterias, roupas e, o mais importante de tudo, sussurravam o nome dos garotos por quem guardavam secretos desejos. Era essa informação que nosso amigo queria. Mas era impossível ouvir.

Com frio na barriga, debateu detalhes com os companheiros. Qual era o melhor refrigerante, o mais detestável, e quais seriam as músicas. Opa! Esse detalhe era importante. Os garotos queriam canções para tirar as moças para dançar, mas, sobretudo, queriam ritmos que inspirassem os rostos a colar bochecha com bochecha.

Tudo que Alberto queria, acima de qualquer refrigerante bom ou ruim, era ouvir Bryan Adams cantar sobre a garota que lhe fazia sentir-se no paraíso. Essa seria a deixa, tiraria Gabriela para dançar e no ouvido dela sussurraria a pergunta.

Dois dias seguiram os preparativos com muito frio na barriga, uma camisa nova e uma cheirosa loção pós-barba — mesmo com raros pelos faciais, Alberto queria tentar o truque que sempre fazia sua mãe amolecer.

A tarde parecia que jamais acabaria. Aquele foi o dia mais longo de que já teve notícia em seus treze anos de vida, e temia ser o único da história da humanidade sem o horário das dezenove.

Por sorte, seu medo era infundado. Quando o relógio marcou sete, o pai de Alberto encostava ao meio-fio em frente à escola. Sem tempo para se despedir, saltou do carro e logo estava no salão, na fileira dos garotos, a admirar a bela Gabriela e suas longas morenas tranças.

Alguns minutos transcorreram assim. Eles de um lado, elas do outro.

Até alguém tomar coragem e incitar os colegas:
“Vamos lá, quem vai ser o primeiro a tirar uma garota pra dançar?”

Riam, empurravam-se, provocavam-se. E foi Alberto quem tomou coragem. Deu as costas para o grupo e seguiu em direção às garotas. Em suas retinas somente Gabriela estava projetada. Nada mais havia naquele salão. Na mente ele repetia, como um mantra ensinado pelo mestre Adams, “garota você é tudo que eu quero”. Um pé após o outro, com cuidado para não estragar tudo, ele se dirigiu à musa, deusa, mulher de seus sonhos, no caminho que parecia ser o maior já percorrido em toda sua vida. Acreditava, piamente, naquele como o momento definitivo. Alberto estava pronto para dar um passo largo em direção a seu futuro. Naquela noite faria a pergunta.

Quase trinta anos depois, na mesa, diante de Jussara, Alberto começou a se perguntar onde foi parar a inocência dos garotos que sonhavam com as meninas no intervalo de seus jogos de pelada ou rouba bandeira, ou ainda, enquanto corriam pelas ruas a pregar peças nos vizinhos. Ele queria saber qual era o futuro dos garotos de hoje que não querem colar a bochecha no rosto de uma linda musa, mas querem competir, muitas vezes com elas mesmas, pelo posto de quem “pega” mais na festa.

Alberto, agora, temia o futuro, principalmente o da filha, que na noite anterior, saindo de uma festa, entrou no carro com leve aroma de loção pós-barba.


(26 de julho/2013)
CooJornal nº 850



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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