02/08/2013
Ano 16 - Número 851


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



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Ana Luiza - CooJornal

Se eu fosse dada a observar e anotar os hábitos da vida alheia, a crônica de hoje poderia contar a história de Oliver, um sujeito que, ao servir-se no restaurante, sacode o vidro de azeite vinte e três vezes até cobrir sua sopa.

Oliver é trabalhador. Às sete horas da manhã chega ao escritório — cabelos ainda molhados, camisa para dentro da calça e sapato social. Ele trabalha na CBTU, mas não utiliza o trem urbano. Oliver também não dirige. Ele é vizinho do escritório e depois da separação, passou a viver sozinho. Não cozinha, não lava, nem passa. Ele conta com a ajuda de Betina.
Se o hábito de observar vidas alheias me atacasse, poderia escrever esta crônica para contar a história da moça que trabalha próximo ao restaurante onde, todos os dias, Oliver serve seu azeite vinte e três vezes. Mas os dois não almoçam juntos. Depois que ele já saiu, as botinas de Betina seguem a fila do buffet. Dentro delas, meias longas; acima, saia curta. Ela gosta de preto. Inclusive os fios que lhe escorrem lisos pelas costas são negros — mais que as asas da graúna, diria José de Alencar.
Mas não sou tão observadora assim. Caso contrário, poderia contar do fusca verde que, todas as manhãs, estaciona na mesma esquina. Poderia dizer que o adesivo da polícia civil na traseira do Gol de cor grafite, estacionado a um quarteirão do fusca, é falso. O motorista é um jovem estudante da PUC que mantém suas apostilas jogadas no chão, atrás do banco do motorista — provavelmente as notas não são as melhores, mas essa é apenas um suposição.
Ainda não me entreguei ao hábito da fofoca, da observação, ou constatação de hábitos de outrem. Se assim tivesse feito, poderia contar que meu vizinho, fumante, gosta dos cigarros mais fracos. Seria possível, ainda, precisar a hora em que, depois de se lavar com sabonete Phebo, ele se permite cinco minutos na área de serviço, para fumar. Frederico fuma free. Se eu tivesse mais informação, poderia criar um, ou mais versos, quem sabe até, com aliterações. Faz frio, Frederico...
Para garantir que a vida alheia esteja bem vigiada, ainda me faltam alguns itens. No entanto, vou contar que certo rapaz, morador da minha rua, não se dá bem com a mãe e tem o sono bem pesado. Quando ela grita, do lado de fora, ele não responde. Quando ele grita, lá dentro, poucos minutos depois dá partida no carro e só retorna após dois dias, para deixá-la, mais uma vez, trancada na rua, sem graça, a dizer que o filho não acorda nem com uma bomba nuclear.
Mas essas histórias, eu somente contaria se fosse dada ao hábito de observar a vida dos outros. Não posso fazer isso, não tenho binóculos, nem desfruto de tantos momentos de ócio assim, além do mais, ainda não sofro de tédio.
Por hora, prefiro inventar estórias.



(02 de agosto/2013)
CooJornal nº 851



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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