04/10/2013
Ano 17 - Número 860


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



Suspense Quatro (Estudo em Píxel sobre Tela)

Ana Luiza - CooJornal

Quando desliguei a Kombi, o lugar mergulhou no silêncio. Mortal.

Eu ouvia meus próprios passos. Eles vinham em minha direção. E se prestasse muita atenção, talvez ouvisse o suor escorrer pela testa, descer as têmporas, pingar em um salto e cair no solo. Minha colônia amadeirada evaporava.

A casa estava lá. Claro, no mesmo lugar. O que eu não esperava era ver a porta que levava ao porão aberta. E não estava. Precisei voltar à Kombi e buscar minha ferramenta.

O silêncio me incomodava. Nem sempre é bom ouvir seus próprios passos, sua respiração, ou seus pensamentos que, sem concorrência, parecem gritar o que você, às vezes, não quer ouvir, mas que, no silêncio, não tem como escapar.

Caminhada em vão. O alicate não estava lá.

Ouvi minha própria voz, movimento involuntário:

“Estúpido. Como pôde?”

Foi aí que me dei conta: no dia anterior, com o susto, deixei o alicate para trás.

Nos filmes, uma pedra funciona. Na vida real, nem sempre encontramos uma. O caminho, por vezes, é livre demais.

Resolvi tentar a porta.

Sei lá porquê, tentei ver através do vidro fosco. Aproximei-me. Nada. Nem um som. Mas Ellen já deveria ter chegado. Ellen Dante Jardim. Sussurrei o nome dela repetidas vezes. Queria me acostumar. Deveria ser Joana Romero Silva. Mas quando doamos a criança, não escolhemos o nome que terá.

Ellen Dante Jardim.

Dante Jardim. Bonito isso.

Sem coragem para tentar girar a maçaneta, fiquei paralisado, apenas repetia o nome. El-len Dan-te Jar-dim. Três nomes, duas sílabas cada. É um belo nome. Harmônico. Faltava apenas o terceiro nome ser paroxítona e ter cinco letras como os demais. Mas nem tudo é perfeito.

Estiquei o braço, toquei na maçaneta. Na hora da covardia, observamos detalhes inúteis: era dourada, redonda, lisa. A base com um trabalho que eu chamo de rococó, particularmente, algo que considero brega. Não. Nada contra o movimento artístico. Há gosto para tudo nesse mundo. A inutilidade dos detalhes deve ser a maneira que o inconsciente encontra de nos desviar do medo. O metal era frio.

Soltei a mão.

Procurei escutar novamente. Tentei enxergar qualquer coisa que fosse. Olhei para trás, para os lados, para dentro de mim mesmo. Aquela era a hora.

Virei a maçaneta.

Senti um leve cheiro de gás.

“Ei, Daniel. Isso aqui é seu?”

Ouvi isso. Não era meu pensamento.

E esse é meu nome.


(04 de outubro/2013)
CooJornal nº 860



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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