06/12/2013
Ano 17 - Número 869


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



Per aspera ad astra1

Ana Luiza - CooJornal

Enquanto eu revia meus “alfarrábios eletrônicos” deparei-me com um arquivo sem nome e cujas únicas palavras digitadas eram em latim: Per aspera ad astra.

Não sei quando digitei isso, não sei porquê e nem mesmo se fui eu — acho melhor não apelar para o esoterismo, nem lucubrar sobre as possibilidades de o cosmo ter enviado um email… deixemos isso para lá e voltemos à aspereza das coisas.

Cosmo ou não, sei que ter encontrado essa frase foi, no mínimo, interessante.

Depois de uma sequência de dias atribulados e por demais ásperos, concluí que está na hora de desacelerar, parar, olhar para os lados, ouvir e só então seguir. Concluí também que, provavelmente, algo em torno de 97%2 da população deveria fazer o mesmo.

E, coincidência cósmica, ou não, li alguns textos que tratavam desta questão: diminuir a velocidade na qual lidamos com os fatos diários, ou, no bom inglês, “take it easy”.

No entanto, foi um vídeo que mais me chamou a atenção, mais que todas as outras mensagens que o cosmo enviou. Trata-se da fala de um monge beneditino acerca da felicidade3. Tema facilmente jogado na lama do clichê, mas que o monge tratou com o devido respeito.

Para ser feliz, basta ter gratidão.

Pronto.

Simples.

Mas talvez não seja fácil. Vejamos: alguns são felizes, mas não são gratos; muitos têm de tudo o que se pode querer ter para ser feliz, mas não são felizes; outros passam por diversas dificuldades, a vida é dura, os ventos sopram contra, ainda assim, são felizes.

Não é a felicidade que gera gratidão, mas sim a gratidão que gera felicidade.

O que vem a ser gratidão? Eis a questão.

Quando você ganha algo que lhe é valioso — você não comprou, não pediu, não barganhou — você se sente feliz; você sente gratidão. Mas nem sempre ganhamos e também não vivemos apenas de experiências felizes. No entanto, podemos viver com gratidão, se vivermos cada momento como uma dádiva, afinal, não há como ter certeza de que aquele momento se repetirá. A verdade é que se você não tivesse o presente momento, seja ele qual for, você não teria as oportunidades futuras.

Na oportunidade, mora a dádiva. Aliás, ela é a dádiva dentro da dádiva. Cada momento é uma dádiva, cada momento é uma oportunidade, e se você perder o momento… não perderá a oportunidade. Outra virá.

Então, devemos ser gratos por tudo, certo? Errado. Eu, por exemplo, não me sentirei grata pela morte de um ente querido, pela violência, nem pela miséria.

E foi nesse ponto que o monge me tocou.

“Mas eu não disse que podemos ser gratos por tudo. Disse que podemos ser gratos em todos os momentos que nos são dados pela oportunidade, e mesmo quando somos confrontados por algo que é terrivelmente difícil, podemos nos erguer e responder a essa oportunidade que nos é dada. Não é tão ruim quanto possa parecer. Na verdade, quando observa e vivencia a situação, você descobre que na maioria das vezes o que nos é dado é a oportunidade para aproveitar e apenas a perdemos porque passamos correndo pela vida e não paramos para ver as oportunidades.”

Uma vez ou outra algo difícil nos é dado justamente para que tomemos o desafio como oportunidade para aprender. Por vezes, é doloroso. Há que se ter paciência e para aprender a ter paciência, há que se ter paciência. Além de defender suas opiniões e convicções.

Aprender, sofrer, defender o que somos são oportunidades que nos são dadas e devemos ser gratos por recebê-las e usá-las — assim somos admirados. Os que perdem a oportunidade, recebem outra. Sabe a história do cavalo selado? Ele passa várias vezes. Ele sempre passa. Nós é que precisamos estar atentos para enxergá-lo. Porque pode ser que a sela não seja exatamente como a que você imaginou, mas ela está ali para você, como uma dádiva.

O que precisamos fazer é usar nossos sentidos e sinalizar tudo o que nos for dádivas, oportunidades, fonte de felicidade. Para isso, siga a teoria de trânsito.

No cruzamento, pare, olhe para todos os lados, escute, siga.

Se você aproveita as oportunidades que a vida lhe dá, enche-se de gratidão. E sabe o que a gratidão gera?

Tolerância, paciência, paz.

Equidade, compaixão.

Quando somos gratos, aguçamos os sentidos e percebemos que aquilo que temos é suficiente, mesmo porque, como ensinou Siddhārtha Gautama, o Buda, todas as coisas do universo são impermanentes, estão em constante mutação, inclusive você, seus desejos e o que você é.

Pessoas gratas interagem, respeitam e são felizes. Elas criam um mundo de gratidão, ou seja, um mundo feliz.



Quando os ventos de mudan
ça sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento. —Érico Veríssimo

 

1.  Pela dificuldade até as estrelas

2.  Não é uma estatística! Foi o número que me ocorreu.

3.  http://on.ted.com/gratefulness




(06 de dezembro/2013)
CooJornal nº 869



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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